sexta-feira, 4 de outubro de 2019

TEORIA CRÍTICA PARA A CRÍTICA DA TEORIA EDUCACIONAL


Resenha: GALUCH, Maria T. B.; CROCHICK, José Leon. Formação cultural, ensino, aprendizagem e livro didático para os anos iniciais do ensino fundamental. Maringá: Eduem, 2018.

A publicação é resultado das pesquisas de pós-doutorado da professora Maria Terezinha Galuch (Uem), sob orientação de José Leon Crochick (Usp). Trata-se de uma proposta pedagógica pautada na Teoria Crítica desenvolvida por Theodor Adorno e Max Horkheimer e demais pensadores do Instituto de Pesquisa Social, posteriormente conhecido como Escola de Frankfurt, aplicada como análise de materiais didáticos do ensino fundamental. O objetivo específico do livro, contudo, não limita voos mais amplos, quer seja, a fundamentação de uma abordagem crítica dos atuais modelos educacionais e propostas pedagógicas, sob a ótica de uma “pseudoformação” e da “heteronomia”. Portanto a amplitude da pesquisa e sua relevância extrapola os limites imediatos dos quais ela se destina. É uma preciosa ferramenta de crítica das atuais condições de ensino e aprendizagem, bem como do modelo educacional vigente.  
O primeiro e o segundo capítulos tem por objetivo analisar a formação, fruto da objetividade social, e sua mediação pela indústria cultural, também responsável por torná-la pseudoformação. Do terceiro ao quinto capítulo a teoria crítica é aplicada enquanto método de análise de livros e projetos pedagógicos, com foco no ensino fundamental. Os autores denunciam e desnudam a aparente neutralidade dos livros didáticos ainda pautados em teoremas positivistas, sua linearidade, exposição descritiva. A linguagem dos primeiros tópicos, porém, não é muito acessível aos não iniciados nos postulados de Adorno e Horkheimer. Por isso, torna-se mister, expor didaticamente os conceitos principais da obra para melhor compreensão de seus objetivos, sobretudo o termo “indústria cultural” e sua relação crítica com educação contemporânea.
A Indústria cultural substitui os esquematismos da razão e prepara o mundo tal como deve ser percebido: sempre igual, sem movimentos, sem contradições; quando essas existem são devidas a falhas do pensamento ou conflitos psicológicos. Certamente os autores da Escola de Frankfurt não negam que haja contradições lógicas e distúrbios pessoais, mas esses não equivalem às contradições objetivas. Resumidamente, a indústria cultural poderia ser definida no conceito que Walter Benjamin a apreende, o conceito de “dialética da imobilidade” (Dialektik in Stillstand). É certo que a dialética, quer seja idealista como em Hegel ou a materialista de Marx, pressupõe movimento, avanços, retrocessos, pois a matéria é dinâmica. Ocorre que com o aparato tecnológico atual, seu entretenimento, sua publicidade, poder-se-ia dizer que a dialética, o motor da história, existe apenas em aparência, enquanto falso movimento, falsa mimese.
Segundo Adorno e Horkheimer, na Dialética do Esclarecimento, a função da indústria cultural consiste justamente em impedir eficazmente qualquer desejo de transformação, qualquer esboço de inciativa por parte dos trabalhadores. O engodo da indústria cultural será duplo. Ela mantém as massas surdas, não as encoraja a recuperar a audição; reforça ainda mais esse enfermidade ao fazer acreditar que não há problema nenhum, que todos escutam muito bem. Produz, então, uma séria sonora ininterrupta e sempre repetitiva que preenche constantemente ouvidos e cabeças como se não houvesse nem possibilidade de silêncio nem possibilidade de outros sons.
A indústria cultural não apenas mascara a violência social que separa a classe privilegiada da massa de trabalhadores; em vez de denunciar a surdez destes últimos, os acostuma a ouvir sempre o mesmo disfarçado de novo, leva-os, portanto, àquilo que Adorno chama, em outros textos, de “regressão da audição”. “A diversão proposta pela indústria cultural é antídoto à resistência à adaptação à sociedade existente, diminuindo a possibilidade de sua alteração” (GALUCH, CROCHICK, 2018, p. 22).
Para exemplificar e fundamentar esta tese, Horkheimer e Adorno (1985, p. 45) recorrem ao mito, especificamente à Odisseia, de Homero. O poema que canta o difícil retorno de Ulisses (ou Odisseu) de Tróia para Ítaca, na Grécia. Na viagem, ele se depara com diversos obstáculos colocados propositalmente para impedir seu regresso. No Palácio de Circe, Ulisses demora um ano inteiro vivendo de delícias e esquece-se da casa e de Penélope, sua esposa. Num dado momento, ao comer “o lótus mais doce que o mel”, Ulisses se esquece até de narrar os fatos. O “esquecimento” através de falsos prazeres e distrações também é descrito na alegoria do “canto das sereias”, retomado magistralmente por Adorno. “Alertas e concentrados, os trabalhadores tem que olhar para frente e esquecer o que foi posto de lado. A tendência que impele à distração (Ablenkung), eles têm que se encarniçar em sublimá-la num esforço suplementar”. De certa forma os remadores (trabalhadores) são compelidos a distraírem-se, a conformarem-se com o olhar apenas para frente, numa única direção.
Distração e entretenimento são problemas também inseridos no cenário da educação, diretamente relacionados ao conceito de pseudoformação. Sobre este termo, os autores preferem a tradução do termo alemão halbbildung, utilizado por Adorno em Teoria da semicultura, por “pseudoformação”, e não como habitualmente “semiformação”.  Mas advertem que “não se trata, na crítica à pseudoformação, de evocar o ressurgimento da formação clássica”, pois “hoje adiantaria pouco ensinar o que era ministrado para alunos de então, pois, a pseudoformação, ditada também pela indústria cultural, altera os sentidos humanos e não somente a consciência” (p. 39).
A falsa formação refere-se a dispersão com que as atuais máquinas distraem os sujeitos, o tempo todo e repetidamente. Computador, celular, mídias nas quais diversas possibilidades de comunicação e de entretenimento mesclam-se ao conhecimento. A concentração e disciplina são constantemente testadas frente aos impulsos da publicidade, imagens embelezadoras da ideologia, nas quais celebridades e modelos competem com um ensino sistematizado. A memória também é testada nesse cenário cultural, os conteúdos que requerem maior internalização como poesias, literatura, matemática, elementos químicos da tabela periódica, etc., são constantemente dispensados, dado à possibilidade de consulta instantânea em qualquer mídia on-line.
Um estudo da Kayser Family Fundation afirma que jovens de oito a dezoito anos gastam agora mais de sete horas e meia por dia com smartphones, televisores e outros instrumentos eletrônicos, em comparação com as menos de seis horas e meia de cinco anos atrás. Quando se acrescenta o tempo adicional em que os jovens passam postando textos, falando em seus celulares ou realizando múltiplas tarefas, tais como ver TV enquanto atualizam o Facebook, o número sobe para um total de onze horas de conteúdo de mídia por dia. (BAUMAN, 2013, p. 53).
A perda substancial que ocorre com a pseudoformação é, segundo Adorno e Benjamim, a substituição da narração pela informação, o elemento mais básico e limitado na escala de aprendizagem. Perde-se com a ausência da reflexão, da crítica, a própria experiência, elemento em desintegração na modernidade. “Na atualidade, com a pseudoformação, os sujeitos são dispensados também de memorizar [até mesmo] as informações” (GALUCH; CROCHICK, 2018, p. 47).
As mudanças ocorridas desde o final do século XX – hegemonia do capital, a revolução tecnológica, a midiatização e as redes sociais – parecem exigir novos métodos educacionais. Importância do permanente questionamento histórico e epistemológico presente na construção dos debates sobre metodologia de ensino.  Nesse cenário onde o Estado parece cada vez mais ausentar-se e isentar-se de sua atribuição social na Educação, tanto em áreas de pesquisa como no ensino superior e básico, a relevância da Teoria Crítica mostra-se profundamente atual e o trabalho dos professores Leon Crochick e Terezinha Galuch um exemplo de crítica que lembra Marx, ainda que eles não o citem: “A crítica arrancou as flores imaginárias dos grilhões, não para que o homem suporte grilhões desprovidos de fantasias ou consolo, mas para que se desvencilhe deles e colha a flor viva” (MARX, 2010, p. 146).
Em artigo sobre o Instituto Alemão de Pesquisa Livre [Instituto de Pesquisa Social], Walter Benjamin (2013, p. 152) situa e diferencia o método analítico dos frankfurtianos para com os positivistas e pragmáticos. O positivismo, como se sabe, volta as costas para a práxis social, pois ele concebe apenas o sentido evolutivo da história e da ciência e não os retrocessos da sociedade. Já para o pragmatismo, a comprovação da teoria na práxis é o critério de verdade satisfatório. Em contraposição a isso, para o pensador crítico, a própria comprovação, a própria demonstração de que ideia e realidade objetiva coincidem e constituem um processo histórico que pode ser inibido e interrompido a qualquer momento. Nisso reside o teor de vigília da teoria crítica, consciente de que a barbárie é uma ameaça constante à civilização. O pensador crítico monta sua trincheira no território da educação e utiliza as armas da crítica para o desnudamento e desmascaramento cínico da pseudoformação e heteronomia, isto é, contra o “canto das sereias” e o “lótus mais doce que o mel” da indústria cultural.
Educação ou barbárie?, é a grande mensagem e legado do livro objeto desta resenha.

Referências:
BAUMAN, Zygmunt. Sobre educação e juventude: conversas com Ricardo Mazzeo; tradução Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.
BENJAMIN, Walter. O capitalismo como religião. Organização Michael Löwy. São Paulo: Boitempo, 2013.
HORKHEIMER, Max; ADORNO, Theodor. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
MARX, Karl. Crítica da filosofia do direito de Hegel; Introdução. São Paulo: Boitempo, 2010.  


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

INFÂNCIA NA GUERRA: PEQUENOS SOLDADOS E A NECESSIDADE DE UMA EDUCAÇÃO PARA ALÉM DE AUSCHWITZ


Resenha:
ALEKSIÉVICH, Svetlana. As últimas testemunhas: Crianças na Segunda Guerra Mundial. Tradução do russo Cecília Rosas. 1.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

Quem leu o Diário de Anne Frank certamente teve uma experiência de choque com os horrores dos campos de concentração nazistas, através da sensibilidade da narrativa infantil. Agora imagine-se centenas de milhares de Anne Franks, judias, polacas, ucranianas, eslavas, vivendo (ou melhor, sobrevivendo) em condições sub-humanas, fatigadas pela fome, doenças, pela carestia dos afetos dos pais, castigadas pelas intempéries do tempo, testemunhando assassinatos e torturas inimagináveis mesmo para os adultos. Este é o cenário do embate entre Alemanha e União Soviética, entre o nazismo e o comunismo – que de fato decidiu a guerra na Europa – rememorados pela lembrança de sobreviventes civis, crianças no momento em que a Segunda Guerra Mundial eclodiu no leste europeu, quando Hitler rompeu o pacto de não agressão com Stálin e deflagrou a Operação Barbarossa, em junho de 1941.

A premiada escritora Svetlana Aleksiévich, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura em 2015, entrevistou uma centena de sobreviventes da Guerra e do fascismo e as fez falar de uma forma sutil, quase lúdica, do retorno à infância. Psicanaliticamente se poderia apreender os motivos desse regresso. A repetição é traço característico do traumatizado, que tende a reproduzir involuntariamente a cena do trauma, no caso os horrores da guerra. Essa narrativa expõe o leitor aos impactos da própria criança, pois Svetlana é o exemplo do narrador benjaminiano, ela não explica sua narrativa e não existem motivos para isso. Ela permite ao leitor que sinta algo semelhante aos entrevistados no momentos de sua rememoração. Sua escrita restringe-se a um parágrafo de prefácio e algumas linhas do epílogo, nada mais. É na recusa do excesso didático que reside o gênio da escritora, isso torna até mesmo esta resenha desconcertante.

“Na minha memória infantil ficou tudo gravado como um álbum. Em fotos separadas... Na aldeia não sobrou nenhuma criança. Não havia com quem brincar na rua...” (Valia Nikitenko, 4 anos em 1941). A lembrança da pequena Valia exemplifica a construção da memória involuntária do trauma, “gravado como um álbum”, em forma de imagens. O método da autora, de dar voz infantil aos adultos, inverte completamente os lugares comuns da narrativa e da historiografia, nosso “adultocentrismo” pouco declarado de impor a visão de mundo do adulto à criança, deformando assim a verdadeira infância.

Talvez o texto que mais se aproxime da forma de “As últimas crianças” seja a “Infância berlinense em 1900”, de Walter Benjamin. Nessa obra o autor, como criança, produz uma mudança radical sobre a autobiografia, através de construções imagéticas ou imagens dialéticas como ele mesmo as define. Ao buscar as memórias no próprio inconsciente infantil Benjamim privilegia o universo onírico, dos sonhos, a magia da infância em sua plenitude. Com essa alteridade ele encontra a voz da “não linguagem” da “não razão”, pois etimologicamente a palavra infância remete ao período anterior a fala (do latim infantia, ou antes da fala). Nesse sentido faz justiça ao postulado anotado nas notas para as Teses Sobre o conceito de história: “A construção histórica é dedicada à memória dos sem nome”.  
O breve prefácio demonstra o lugar privilegiado da infância em detrimento dos horrores da guerra:
No passado, Dostoiévski fez a seguinte pergunta: e será que encontraremos absolvição para o mundo, para a nossa felicidade e até para a harmonia eterna se, em nome disso, para solidificar essa base, for derramada uma lagrimazinha de uma criança inocente?  E ele mesmo respondeu: essa lagrimazinha não legitima nenhum progresso, nenhuma revolução. Nenhuma guerra. Ela sempre pesa mais.
Só uma lagrimazinha...

A narrativa através da memória infantil não deixa dúvidas quanto a essa afirmativa. Convém citar algumas das mais comoventes:
“Não só os orfanatos passavam fome, as pessoas ao nosso redor também, porque entregavam tudo pra o front. Moravam 250 crianças no orfanato, e uma vez nos chamaram para o almoço, mas não havia nada para comer. A educadora e a diretora estavam sentadas no refeitório olhando para a gente e os olhos delas estavam cheios de lágrimas. (...) E também tinham dois gatos famintos. Uns esqueletos! Que bom, pensamos depois, que sorte que os gatos são tão magros, não vamos ter que comê-los. Não havia nada para comer. (...) Na primavera, num raio de alguns quilômetros ao redor do orfanato, não brotava uma árvore... Tínhamos comido todos os brotos. Comíamos capim, comíamos tudo o que havia pela frente.” (Zina Kossiak, oito anos).

Lembro que os adultos falavam: “Ele é pequeno. Não entende”. E eu respondia: “Como esses adultos são estranhos, por que eles acham que eu não entendo nada? Entendo tudo”. Eu até achava que entendia mais do que os adultos, porque eu não chorava, e eles choravam.
“A guerra é meu livro de história. Minha solidão... Perdi a época da infância, ela fugiu da minha vida. Sou uma pessoa sem infância, em vez de infância tenho a guerra.” (Vássia Khárevski, quatro anos).

“Se eu perguntasse a todos: o que é a infância? Cada um diria algo próprio. Mas para mim a infância é mamãe, papai e bombom. Por toda a infância eu queria mamãe, papai e bombom. Na guerra não só não provei nenhum bombom como nunca os tinha visto.” (Marina Kariánova).

“E quando saímos de Minsk, vimos como ardia nossa escola. As chamas subiam em todas as janelas. Tao vivas... Tão... Tão fortes, iam até o céu... Nós soluçávamos porque nossa escola estava pegando fogo.” (Inna Levkiévitch, dez anos, hoje arquiteta).
“Lembro que depois da guerra só tínhamos uma cartinha na aldeia, é o primeiro livro que achei e li era uma reunião de exercícios de aritmética. Li como se fosse poesia...” (Sacha Kávrus).

“Durante a guerra eu não tinha visto nenhum objeto infantil. Havia esquecido que eles existiam em algum lugar. Os brinquedos de criança...” (Volódia Tchistokliétov).
 “Ele [o irmão] estava com tanta fome que pedia para a mamãe: “Vamos cozinhar meu patinho”. O patinho era o brinquedo preferido dele, antes disso não deixava ninguém pegar. Dormia com ele.
Gritávamos: “Casinha, não queime! Casinha, não queime!” Não tivemos tempo de tirar nada da casa, só peguei minha cartilha. Eu a salvei por toda a guerra, protegi. Dormia com ela, sempre a deixava embaixo do meu travesseiro. Queria muito estudar.” (Nina Ratchítskaia, sete anos).

No quinto capítulo da obra “Educação e emancipação”, intitulado “Educação após Auschwitz”, o filósofo Theodor Adorno afirma que a exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação. Ela foi a barbárie contra a qual se dirige toda a educação, pois a educação tem sentido unicamente como educação dirigida a uma autorreflexão crítica. Nesse sentido, como todo caráter forma-se na primeira infância, a educação precisa se concentrar na primeira infância. O único poder efetivo contra o princípio de Auschwitz seria a autonomia, o poder para a reflexão, a autodeterminação, e não-participação. Todo o livro repleto de iluminações críticas quanto ao processo educacional poderia ser sintetizado nesta fórmula: “a função da escola é a desbarbarização da humanidade”.

Sem jamais perder de vista a catástrofe da Segunda Guerra Mundial e o terror do Holocausto, Adorno procura resgatar a importância ética do passado no presente para pensar a educação do futuro. “Tudo dependerá do modo pelo qual o passado será referido no presente, se permanecemos no simples remorso ou se resistimos ao horror”, ele insiste. “Naturalmente para isso será necessária uma educação dos professores”, ele completa (2003, p. 20). A lembrança deveria ser o ponto chave dos processos de ensino-aprendizagem, uma vez que as novas gerações precisavam ser educadas para o não esquecimento. A educação das novas gerações deveria se concentrar na educação infantil, pois ali residiria a única possibilidade de criar novos seres humanos totalmente preparados para evitar a experiência de guerra e do Holocausto.

Referências:
ADORNO, Theodor.  Educação e emancipação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2003
BENJAMIN, Walter. Rua de mão única, Infância berlinense: 1900. Edição e tradução João Barrento. Belo Horizonte: Autêntica, 2017.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

O TEMPO MESSIÂNICO: UMA ANÁLISE HISTÓRICA E CULTURAL DO MESSIANISMO CAMPESINO NO CONTESTADO (1912-1916)

Resumo:

Há uma estreita relação entre os movimentos de resistência e cultura popular com o messianismo. Este artigo examina essa aproximação a partir do conceito dialético benjaminiano de “origem” (ursprung). A “origem” é um protofenômeno no sentido teológico, quer seja ele o Paraíso ou o comunismo primitivo, uma idade edênica e igualitária na Terra. Literalmente são “saltos” para fora da continuidade histórica linear que rompem com o desenvolvimento meramente evolucionista da História. A quebra da continuidade histórica não volta-se exclusivamente ao passado idealizado, mas também para o futuro, à utopia, ao millenium. Entre a experiência no passado e a expectativa no porvir há o que pode ser denominado de “tempo messiânico”. Em termos históricos e menos filosóficos esta abordagem poderia ser associada ao conceito cultural que Raymond Williams chamou de culturas residuais e emergentes. Busca-se portanto um método dialético para pensar o fenômeno em questão.

domingo, 31 de julho de 2016

REDES SOCIAIS: O MODERNO CANTO DAS SEREIAS PARA FLANÊURS ON-LINE

Em 2013 escrevi um texto intitulado “Um saco de batatas, spray de pimenta e vinagre: a salada insossa dos recentes protestos populares”, referente aos movimentos que tinham o ideal do “Passe livre”, mas se degeneraram de forma heterogênea e inconstante (“apolíticos”) por todo o país. A tese era centrada na análise histórica dos motins e protestos dos primórdios da Revolução Industrial (Marx, Thompson, Rudé, Hobsbawm) interpretados paralelamente aos novos valores da estética social atual: um protesto pelo consumo. O texto pode ser resumido na paráfrase de uma citação de Edward Thompson em “Costumem em comum”: “A cultural popular é rebelde, mas o é em defesa dos costumes”; ao passo que na atualidade poder-se-ia dizer que “a cultura popular é rebelde, mas o é em defesa do consumo”.

O artigo escrito no calor da hora naturalmente recebeu críticas da comunidade acadêmica que viu com entusiasmo o “despertar das massas” em consonância com o apoio tácito das mídias no jargão “o gigante despertou” (sic). O método era incipiente e hipotético, eu não conhecia ainda os trabalhos de Zizek e Zygmunt Bauman que também analisavam os protestos da França e Inglaterra (2011) como “revolta sem revolução; uma inconveniência e não uma ameaça”. Os fatos ulteriores referendam a sociologia estética de Bauman: reação conservadora e falência dos movimentos sociais, a contrarrevolução antes da revolução.

Outra contribuição importante de Zygmunt Bauman é a refutação da tese recorrente nos movimentos estudantis e no senso comum pretensamente de esquerda, de que as redes sociais (Facebook, Twitter, Whats-App e Instagram) são um instrumento importante de mobilização, organização e atração das massas em prol das revoltas ou protestos populares. Não, hoje pode-se dizer que as coisas se passam justamente ao contrário das certezas dos tempos de “Primavera árabe”. As redes sociais tem um efeito “terapêutico” apenas, a ilusão de não estar sozinhos no meio da multidão. A necessidade de estar sempre conectados com seus pares pelo Facebook ou Twitter leva à atrofia da criatividade. O efeito colateral evidentemente é que ao anunciar e entregar analgésicos morais comercializados, os mercados de consumo apenas facilitam, em vez de evitar, o enfraquecimento, o definhamento e a desagregação dos vínculos inter-humanos. (BAUMAN, 2013, p. 108).

É natural que uma geração leitora de mínimos carácteres possíveis apreenda apenas o nível mais baixo de aprendizagem que é o da transferência de informação a ser memorizada. Estudo da Kayser Family Fundation afirma que jovens de oito a dezoito anos gastam agora mais de sete horas e meia por dia com smartphones, televisores e outros instrumentos eletrônicos, em comparação com as menos de seis horas e meia de cinco anos atrás. Quando se acrescenta o tempo adicional em que os jovens passam postando textos, falando em seus celulares ou realizando múltiplas tarefas, tais como ver TV enquanto atualizam o Facebook, o número sobe para um total de onze horas de conteúdo de mídia por dia. (BAUMAN, 2013, p. 53).

O consumo das redes sociais não está prioritariamente relacionado ao fetichismo da mercadoria, mas a ilusão de consumir a participação política. O fascismo alemão foi pioneiro na utilização estética como instrumento de falência da organização operária, com o cinema. Ao permitir que as massas fossem filmadas os nazistas davam-lhes a impressão de que eram parte do sistema político, naquilo que Walter Benjamin chamou de “estetização da política”. Ao permitir que as classes trabalhadoras se expressassem teoricamente, o nazismo lhes restringia a participação de fato, democrática, na política.

Nos dias de hoje, graças a despreocupada e entusiástica autoexposição dos viciados em Facebook a milhares de amigos e milhões de flâneus on-line, os gerentes de marketing podem atrelar no carro de Jagrená consumista vontades e desejos mais íntimos e aparentemente mais “pessoais” e “singulares”, articulados ou semiconscientes – já efervescentes ou apenas potenciais. Personalidade única: trata-se de uma verdadeira ruptura nos destinos do marketing e da política. O “Carro de Jagrená” (no hindu, Jagannãth, “senhor do mundo”) transporta anualmente um ídolo de Krishna pelas ruas, sob suas rodas se atiram os seguidores que são por ele esmagados. Trata-se de uma metáfora criada por Anthony Giddens para caracterizar a modernidade.

O flâneur, por sua vez, é um resgate de uma expressão típica de Baudelaire: o caminhante solitário na multidão. Baudelaire gostava da solidão, mas se possível no meio da multidão.  Para Alan Poe, o flâneur é sobretudo alguém que não se sente integrado em sua própria sociedade, por isso procura a multidão. Em síntese, trata-se de um conceito sociológico da própria cidade moderna, de solitários abandonados entre a multidão. Isso os coloca na mesma situação da mercadoria, apesar de não terem consciência dessa particularidade. “Penetra-o como um narcótico que o compensa de muitas humilhações. O transe a que se entrega o flâneur é o da mercadoria exposta e vibrando no meio da torrente de compradores” (BENJAMIN, 2015, pp. 50-57).

A ideia do flâneur on-line pode ser melhor compreendida em síntese com a alegoria do “canto das sereias”, de Adorno e Horkheimer sobre o conceito de “indústria cultural”. Segundo esses pensadores da Escola de Frankfurt, na Dialética do Esclarecimento, a função da indústria cultural consiste justamente em impedir eficazmente qualquer desejo de transformação, qualquer esboço de inciativa por parte dos trabalhadores. O engodo da indústria cultural será duplo. Ela mantém as massas surdas, não as encoraja a recuperar a audição; reforça ainda mais essa enfermidade ao fazer acreditar que não há problema nenhum, que todos escutam muito bem. Produz, então, uma séria sonora ininterrupta e sempre repetitiva que preenche constantemente ouvidos e cabeças como se não houvesse nem possibilidade de silêncio nem possibilidade de outros sons. (GAGNEBIN, 2014).

 A indústria cultural não só mascara a violência social que separa a classe privilegiada (que pode ter sensibilidade artística) da massa de trabalhadores; em vez de denunciar a surdez destes últimos, os acostuma a ouvir sempre o mesmo disfarçado de novo, leva-os, portanto, àquilo que Adorno chama, em outros textos, de “regressão da audição”. No episódio das Sereias, em A Odisseia, os remadores são, simultaneamente, impedidos de distrair-se e obrigados a uma distração, a um divertimento imposto. Escreve Adorno: “Alertas e concentrados, os trabalhadores tem que olhar para frente e esquecer o que foi posto de lado. A tendência que impele à distração (Ablenkung), eles têm que se encarniçar em sublimá-la num esforço suplementar”. (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 45).

Nessa obra de Adorno e Horkheimer, o poder da indústria cultual é de tal maneira avassalador e nefasto, que esta se transforma numa versão moderna da antiga coerção mítica. Parece não haver, nesse poder devastador, nenhuma possibilidade de brecha, de ruptura. Há apenas distração/entretenimento (Zerstreuung, Unterhaltung) – que a indústria cultural impõe como única fruição permitida. Com as redes sociais não existem mais atores sociais, mas apenas espectadores de si mesmos. Pois há o rompimento com o meio de comunicação (Medium) característico da indústria cultural. Trata-se de uma “cultura de cassino” virtual que impele à distração ou um “narcótico”, como diz Benjamin.

Estas observações nos remetem novamente para a Odisseia, de Homero, livro mestre e exemplo maior na literatura ocidental no que se refere a resistência aos obstáculos colocados pelos deuses (e agora pela inteligência artificial), na tentativa da construção da memória coletiva, da história narrativa, do que de fato importa: a vida real. O poema épico narra o difícil retorno de Ulisses de Tróia para Ítaca, na Grécia. Na viagem, ele se depara com diversos obstáculos colocados propositalmente para impedir seu regresso. No Palácio de Circe, Ulisses (ou Odisseu) demora um ano inteiro vivendo de delícias e esquece-se da casa e de Penélope, sua esposa. Num dado momento, ao comer “o lótus mais doce que o mel”, Ulisses se esquece até de narrar os fatos.

A memória, a lembrança e a rememoração são os objetos do historiador. Na mitologia grega, Zeus toma como sua quinta esposa Mnemosine (a deusa da memória). Até o deus do Olimpo precisava ser lembrado para existir. Mnemosine existia para suprimir Lethe (o esquecimento). As redes sociais são a “flor de lótus” da modernidade que aliadas ao “canto das sereias” da indústria cultural formam um tipo ideal (no sentido weberiano) de dominação simbólica que poderia ser sintetizado na expressão “jaula de aço”, novamente emprestado de Max Weber. Este é um terreno propício para os abandonados e solitários na multidão: os flâneurs on-line.

A atuação amoral e imoral da Cambridge Analytica em eleições no EUA, no Brexit britânico e recentemente no Brasil, leva-nos impreterivelmente a uma visão trágica das redes sociais. Algoritmos e inteligência artificial aliados a uma Big Data de informações pessoais levam a máquina a direcionar o pensamento humano de acordo com os interesses sórdidos de quem pagar mais. Não basta, porém, “desplugar”. Mas sobretudo articular mecanismos eficientes para resistência e conscientização. A educação, a arte, a música, são caminhos possíveis.    

“Minha suspeita (rezo para estar errado!) é que a ação mediada pela internet só possa obter a substituição da não política por uma ilusão da política. Até agora, infelizmente, minhas suspeitas têm sido confirmadas. Nenhuma das explosões populares de protesto estimuladas pela internet e eletronicamente ampliadas conseguiu remover os motivos da raiva e do desespero das pessoas”, conclui Bauman (2013, p. 79). Ao passo que poderíamos concluir com a sentença crítica de Karl Marx, que bem sentiu a falácia ilusória da socialdemocracia em seu nascedouro. Na “Crítica ao programa de Gotha” ele escreve: “cada passo do movimento real é mais importante do que uma dúzia de programas”. O lugar por excelência de uma coletividade atuante e desperta é a rua e sua cor é o vermelho, e não a blue light das telas touch screen.

Referências:
ADORNO, T.; HORKHEIMER, M. Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
BAUMAN, Zygmunt. Sobre educação e juventude: conversas com Ricardo Mazzeo. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.
BENJAMIN, Walter. Baudelaire e a modernidade. Tradução João Barrento. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.
GAGNEBIN, Jeanne Marie. Limiar, aura e rememoração. Ensaios sobre Walter Benjamin. São Paulo: Editora 34, 2014.

HOMERO. Odisseia. Tradução direta do grego, introdução e notas por Jaime Bruna. São Paulo: Cultrix, 2013.


Publicado no blog da Revista Espaço Acadêmico: https://espacoacademico.wordpress.com/2018/11/11/redes-sociais-o-moderno-canto-das-sereias-para-flaneurs-on-line/

terça-feira, 19 de julho de 2016

ESCOLA SEM PARTIDO: A NOVA AVENTURA DE KARL MARX CONTRA O BARÃO DE MÜNCHHAUSEN

Há pelo menos dois séculos se discute a suposta isenção ou imparcialidade – o método – em ciências humanas. Ou quase quatro séculos se pensarmos em Descartes e o more geométrico do “Discurso do método” (1637). Se optarmos por comparar os métodos científicos, colocando lado a lado marxismo e positivismo, ficará evidente que o discurso da Escola sem partido converte-se sorrateiramente numa formidável censura. Uma vez comparados, torna-se mister citar a anedota do Barão de Münchhausen, este herói picaresco e dialético que retorna de tempos em tempos para reviver a batalha perdida para Marx.
Condorcet, filósofo iluminista e contemporâneo da Revolução Francesa, é o pai do conceito de Positivismo.  Condorcet estava inserido no pensamento racionalista e iluminista, no anticlericalismo francês típico da grande Revolução, buscava assim uma ciência objetiva,
relacionada à matemática e física, visando escapar dos preconceitos das classes dominantes de então: a aristocracia e o clero. A ciência positiva deveria se libertar de todos os dogmas políticos ou religiosos, vistos como preconceito e obscurantismo. Mas o primeiro a utilizar o termo “ciência positiva” foi o socialista utópico Saint-Simon. O Positivismo em Condorcet como em Saint-Simon tem um aspecto utópico, crítico e busca a superação da subjetividade. Mas com Augusto Comte, discípulo de Saint-Simon, o conceito passa a ser conservador e distópico. A sociedade deveria ser interpretada tal como uma equação matemática ou lei da gravidade, ou do movimento da Terra em torno do Sol. (LÖWY,
Hoje, sabemos o quanto esse pensamento tem de simplicidade e até ingenuidade, mas, no final dos oitocentos, o positivismo influenciou sociólogos do calibre de um Émile Durkheim e historiadores como Leopond von Ranke. É bem conhecida a ilusão de Ranke, que almejava conhecer o passado “como de fato foi”, como algo fixo e cristalino. Mas o que é mais importante e conveniente compreender sobre o positivismo é a doutrina que lhe é subjacente: a ideia do progresso como algo inevitável e contínuo, como aperfeiçoamento linear da história e da humanidade. Justamente nesse ponto o positivismo fracassa enquanto método, pois ele reconhece apenas a evolução da técnica, do capitalismo, da indústria e não os retrocessos da sociedade. (BENJAMIN, 1994, 2012).
No clássico “As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen”, Michael Löwy examina a relação entre visões sociais de mundo (ideológicas ou utópicas) e conhecimento, no domínio das ciências sociais, a partir de uma discussão crítica com as principais tentativas de elaboração de um modelo de objetividade científica que surgiram no seio do positivismo, do historicismo e do marxismo. A crítica à disfarçada ou deliberada tentativa de isenção ou imparcialidade, da ciência livre de julgamentos de valor ou de classe, sobretudo nos positivistas, mas também em Max Weber, quando este afirma que na esfera das ciências sociais, uma demonstração científica metódica que pretende ter atingido seu objetivo, deve poder ser reconhecida como exata “da mesma maneira por um chinês”, surge de forma erudita num diálogo entre a utopia e as ideologias, para que o método sociológico torne-se não menos ideológico, mas sim, mais cristalino e objetivo.
A crítica tem um elemento bem humorado quando Löwy relaciona o “esforço de objetividade” da sociologia positivista, de Durkheim e seus discípulos, como uma ilusão ou mistificação, com a anedota do Barão de Münchhausen. Este herói picaresco, tal como os positivistas, quando se vê atolado num pântano em que ele e seu cavalo estavam sendo tragados e sem a ajuda de ninguém, agarrou seus próprios cabelos e, por meio deles, puxou-se para cima, trazendo consigo seu cavalo entre as pernas. Com esta alegoria bem humorada, Löwy (1995, p. 32) conclui “que os que pretendem ser sinceramente seres objetivos, são simplesmente aqueles nos quais as pressuposições estão mais profundamente enraizadas”.
A metáfora ou alegoria com o Barão de Münchhausen evidencia a estreita subjetividade nas ciências humanas, mesmo sob a máscara da isenção e imparcialidade. As ideologias de classe estão presentes mesmo em autores que advogam a objetividade da “ciência pura”. O proletariado, todavia, segundo Löwy não necessita desse aparado ideológico para provar sua verdade.
Na conclusão de As aventuras de Karl Marx, Michael Löwy resgata uma metáfora de Rosa Luxemburgo e compara o cientista social ao pintor de uma paisagem, pois a pintura depende em primeiro lugar do que o artista pode ver, isto é, do observatório onde ele se acha inserido. Mas pondera e afirma que o observatório ou mirante é o ponto de vista de classe, e, quanto mais elevado, permite ampliar o horizonte e perceber a paisagem em toda a sua extensão. O observatório mais alto é, naturalmente, o ponto de vista do proletariado. Pois a verdade é para o proletariado uma arma indispensável a sua auto-emancipação, ao contrário da burguesia que tem necessidade de mentiras ou ilusões para manter seu poder, o proletariado tem necessidade de verdade...
“A verdade é sempre revolucionária”, a frase de Antonio Gramsci surgiu quase vinte anos antes, como epígrafe do livro Método dialético e teoria política, de 1978. Esta obra é o prólogo, menos elaborado e sofisticado de As aventuras de Karl Marx. No entanto, já no grundisse (esboço) de 1978 a crítica à sociologia positivista como “uma simplicidade evangélica” fica explicitada. A tentativa epistemológica de assimilação da sociedade à natureza, da sociedade regida por leis naturais, invariáveis e independentes da vontade e da ação humana, “sob o impacto do marxismo, o mito positivista de uma ciência social neutra e assexuada como os anjos da teologia medieval foi severamente abalado” (LÖWY, 1978, p. 17).

Referências:
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.
LÖWY, Michael. Método dialético e teoria política; tradução Reginaldo di Piero. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.
_____. As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen: marxismo de positivismo na sociologia do conhecimento. São Paulo: Cortez, 1994.
_____. Ideologias e ciência social: elementos para uma análise marxista. 19. ed. São Paulo: Cortez, 2010.


segunda-feira, 21 de março de 2016

CULTURA CABOCLA: O MESSIANISMO COMO ELEMENTO DA CULTURA POPULAR E ERUDITA NA GUERRA DO CONTESTADO (19012-1916)

Resumo: Há uma estreita relação entre os movimentos de resistência e cultura popular com o messianismo. Este artigo examina essa aproximação a partir do conceito dialético benjaminiano de “origem” (ursprung). A “origem” é um protofenômeno no sentido teológico, quer seja ele o Paraíso ou o comunismo primitivo, uma idade edênica e igualitária na Terra. Literalmente são “saltos” para fora da continuidade histórica linear que rompem com o desenvolvimento meramente evolucionista da História. A quebra da continuidade histórica não volta-se exclusivamente ao passado idealizado, mas também para o futuro, à utopia, ao millenium. Entre a experiência no passado e a expectativa no porvir há o que pode ser denominado de “tempo messiânico”. No contexto da História Cultural, pode-se dizer que o messianismo está inserido tanto na cultura erudita (nas filosofias de Walter Benjamin e Ernst Bloch), como na cultura popular (entre os caboclos do Contestado, no folclore). Estes elementos constituem uma hipótese de circularidade cultural.

 Palavras-chave: Guerra do Contestado; Messianismo; Circularidade cultural.

Na íntegra em: http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/28888/16210  




 

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

MARCELO MONTEIRO: UM ESCULTOR À MARGEM DO CAPITALISMO

Os pontos destacados acima – Realismo [pouco grotesco], a perda da Aura, o Surrealismo – são, a meu ver, os pontos-chave para a apreensão das esculturas e do pensamento de Monteiro. Mas não são os únicos devido à originalidade de Marcelo Monteiro, que tende a escapar de qualquer escola artística, constituindo assim seu próprio estilo, marcado pela revolta e melancolia. Se fosse possível condensar sua mensagem em uma imagem alegórica[1], diria que suas esculturas nos olham como a Medusa da mitologia grega. Mas trata-se de uma Medusa às avessas, em vez de petrificar aquele que a encara, as esculturas de Monteiro buscam justamente o inverso, isto é, devolver a aura ao ser materializado, ao autômato mecanizado, sem sentimentos.
[...]

[1] O sentido literal não é o sentido verdadeiro. Deve-se aprender uma outra leitura que busque sob as palavras do discurso seu verdadeiro pensamento, uma prática que os estóicos chamam de hyponoia (subpensamento) e à qual Filo de Alexandria dará seu nome definitivo de alegoria (de allo, outro e agorein, dizer)” (GAGNEBIN, 1999, p. 34).



domingo, 9 de agosto de 2015

“ESTETIZAÇÃO DA POLÍTICA E POLITIZAÇÃO DA ARTE”: A ESTÉTICA DO FASCISMO NAS OBRAS DE WALTER BENJAMIN

Resumo: O artigo examina a ascensão do fascismo na Alemanha a partir da estética de Walter Benjamin e propõe, ao final, um diálogo com Ernst Bloch. O método visa escapar de interpretações meramente econômicas que supostamente explicam a chegada de Hitler ao poder. Procura-se um campo semântico mais vasto, dialético, como os conceitos utilizados por Benjamin de messianismo, alegoria e origem (ursprung). A “origem” é um protofenômeno no sentido teológico, quer seja ele o Paraíso ou o comunismo primitivo, uma idade edênica e igualitária na Terra. Literalmente são “saltos” para fora da continuidade histórica linear que rompem com o desenvolvimento meramente evolucionista da História. Com uma catástrofe iminente era necessário explodir o continuum da história.


Palavras-chave: Walter Benjamin, Dialética, Materialismo Histórico, Messianismo, Fascismo.


sexta-feira, 26 de junho de 2015

Amizade, um presente

A um amigo "ausente"

Meu amigo ausente
És mais presente
Do que imaginas.

Sinto sua doce presença
Na mais simples
Flor da bonina.

No vento atrevido
Que farfalha as folhas da amora
Sinto que me namoras.

Nos mais variados
Sabores do queijo Minas
A vontade de roubar teus beijos me domina.

No olhar de tesoura
Que corta o céu e a montanha
A vontade de te ter me entranha.

No toque macio
Das roupas de cama
Sinto que me amas.

Se és, assim, tão presente
Como, ainda, tens coragem
De te declarares ausente?

(Autora: N.L.A.C)

domingo, 21 de junho de 2015

Aforismos para a história de um jaleco

Durkheim pensou ter encontrado as formas elementares da religião no sistema totêmico. Foi contestado, mas em partes permanece correto. Objetos carregam a aura e em alguns casos, a própria personalidade. Um objeto único, sendo arte, mantém o valor de culto, disse Benjamin. Pode ser um jaleco um totem? Talvez. Uma representação, sem dúvida.

“Leiam-me devagar”, advertiu Nietzsche na Aurora. Pois, um aforismo jamais coincide com a verdade. Ou é uma meia verdade, ou uma verdade e meia. Proclamou Karl Kraus, mestre no estilo alegórico. Alegorias e aforismos são herméticos, escondem a verdade, decifrada apenas por aqueles que têm o espírito livre, de verdades.

Medicina era a quimera de mamãe, pobre coitada. Mas o branco, tal como entre os símbolos de Cruz e Souza penetrou no inconsciente. A pureza branca transformou-se em sangre pútrido, no açougue. Conhecemos Sífiso e sua maldição do eterno retorno, segundo Engels. Mas na ânsia de ser Prometeu e desafiar os deuses na terra e a servidão humana (ou seria o próprio Fausto? Oh dúvida) buscou a profana ciência. O vermelho púrpuro encontrou ressonância no vermelho socialista.

De linho e rosas brancas vais vestido,
Sonho virgem que cantas no meu peito!...
És do Luar o claro deus eleito,
Das estrelas puríssimas nascido.
 (Cruz e Souza)

O jaleco sujo de carne animal foi para o laboratório de anatomia humana. Não poderia haver lugar melhor para compreender a vida e a morte. Odor, formol. Tão materialista, não compreendia a alma e as formas. E ela chegou como um anjo branco, com os mesmos sonhos e desejos. “Demora eternamente, és tão bela”. Dividiu a história tal como Cristo ou a grande Revolução. Paz, pureza, virgem. Do romance ao drama homérico e ao soneto de despedida, de Vinicius, de dor, de saudade.   

 “Nessa altura despertará também a pobre verdade aqui contida, que um dia se picou na antiquada roca de fiar, quando, sem autorização para isso, quis tecer para si próprio, numa arrecadação cheia de talha velha, uma beca professoral.” (BENJAMIN).

É possível substituir o amor pela ciência ou pela política? Ciência como vocação, Weber adverte, também é preciso ter “paixão e devoção apaixonada a uma ‘causa’, ao deus ou ao demônio que a espera”. Livros e putas podem-se levar para cama. Livros e putas tem entre si, desde sempre, um amor infeliz. Livros e putas – notas de rodapé são para uns o que são, para outras, notas de dinheiro na mesa. (Rua de mão única, Benjamin).

Sedex. O jaleco se foi. Habitar outro corpo, com o mesmo calor de adolescente e ficou o vazio. Do realismo para o barroco. Marília sem Dirceu. Os livros e o vinho suplantam momentaneamente a alma vazia. Busca-se calor noutros panos, bocas, corpos... vazios. Utilitarismo econômico mata a vida. Bares cheios, almas vazias.


E para o ódio afogar e o ócio ir entretendo
Desses malditos que em silêncio vão morrendo.
Em seu remorso Deus o sono havia criado;
 O Homem o Vinho fez, do Sol filho sagrado!
  (Sainte-Beuve, Abel e Caim). Blasfêmia.

Nem o tempo messiânico preenche a parusia. Busca-se a ressurreição. Domou o destino pelas mãos, perdeu a felicidade entre os dedos.

Ainda é cedo. Vento no litoral. Pistas. Labirinto. Biografia. 

segunda-feira, 4 de maio de 2015

29-04-2015 O “CHOQUE” DE GESTÃO DE BETO RICHA

Sem a ideia de uma vida futura, seria difícil ao homem suportar a sua condição de escravo. Daí a importância do messianismo na história do patriarcado (Oswald de Andrade).

Na medida em que a humanidade desloca o sentido da história, do passado e presente, para um futuro indeterminado, quer seja o paraíso, a sociedade sem classes ou a crença ilimitada no progresso técnico, ela tende a negar o presente e as lutas da ordem do dia. Mesmo Marx, no Dezoito brumário fala em “poesia do futuro” e não em resgatar as energias atadas na tradição e na experiência. Trata-se de uma filosofia da história que, com Santo Agostinho ganhou fundamentação prática, é o processo de “esticar o círculo” da história grega e romana, o tempo do eterno retorno; a história desde Agostinho tem um sentido linear, um fim, uma meta, é escatológica, portanto. É a partir deste viés que os fatos ocorridos em Curitiba em 29-04-015 podem ser compreendidos profundamente e não apenas em essência. Na medida em que o governador Beto Richa começa a implantar seu projeto de desestatização, a engenharia do estado mínimo neoliberal, ele ameaça a própria noção de futuro da classe trabalhadora, de esperança. Reside aí um grande risco ao operariado, mas também o seu revés, a união de toda a classe em uníssono, pois o messias moderno não vem como redentor dos céus, ele é a própria humanidade redimida enquanto coletividade (LÖWY, 2005).   
É compreensível a busca de esperança no futuro. Walter Benjamin (1994), outro autor messiânico, no ensaio “Experiência e pobreza”, afirma que “nunca houve experiências mais radicalmente desmoralizadoras que a experiência estratégica pela guerra de trincheiras, a experiência econômica pela inflação, a experiência do corpo pela fome, e experiência moral pelos governantes”. A esta última frase poderíamos acrescentar “experiência imoral dos governantes”. Pois bem, é a partir desta crise da modernidade, de tradições, experiência, da capacidade de narrar que, pode-se dizer, a classe trabalhadora perdeu sua capacidade de odiar, de luta, de orgulho. Engels, em Condição da classe trabalhadora na Inglaterra, narra o enfrentamento aberto de proletários com burgueses durante a Revolução Industrial. Edward Thompson, em Costumes em comum, descreve as formas sutis e engenhosas dos trabalhadores “persuadirem” os patrões por melhores condições de trabalho, com cartas de ameaças ou mesmo atentados. George Rudé, em A multidão na história, demonstra como os motins foram eficazes na regulação do preço do pão e (pasme) até do dizimo da paróquia. Auguste Blanqui deixou um espectro de temor entre os franceses durante todo o século XIX e a Comuna de Paris marcou a primeira grande experiência de autogestão da classe trabalhadora, fenômeno que Marx descreveu como “um assalto aos céus”!
Mas com o “avanço” técnico e a ilusão do progresso a classe trabalhadora perdeu sua capacidade de odiar, de crítica; com as migalhas trabalhistas tornou-se passiva; com a social democracia que provoca miopia avançada, tornou-se iludida no sonho de aburguesar-se. Ao deslocar o eixo temporal histórico do passado para o futuro (KOSELLECK, 2009), o proletariado (incluso aí os professores, jamais nos esqueçamos disso) não mais retira suas energias da tradição, mas da esperança; dos descendentes libertados e não dos antepassados escravizados. Portanto temos nossa parcela de culpa nos eventos supracitados, o governador Beto Richa é apenas o operador da “mão invisível do mercado”.
Dito isto, vou descrever factualmente os três dias de batalha em Curitiba e, ao final, retornar à tese inicial e expor a verdadeira motivação, o projeto neoliberal enfim posto em prática no fatídico 29-04. Saímos de Maringá na noite de segunda (27-04), num ônibus fretado pelo sindicado dos servidores da UEM. Entre os presentes estavam alunos de diversos cursos, servidores e sindicalistas, jovens de dezoito anos e senhores de 60. Chegamos na manhã de terça na capital e montamos acampamento na praça em frente à Assembléia, no centro cívico de Curitiba. Havia, de antemão, um clima bastante tenso, pois soubemos que naquela madrugada os carros de som do sindicato de professores foram guinchados à força pela tropa de choque da PM e os poucos que resistiram à investida na calada da noite foram reprimidos com truculência e gás de pimenta.
Na tarde de terça o projeto de lei número 252-2015 passou pela análise de comissão e justiça e o revisor pediu prazo de 24 horas para entregar o documento final para votação dos deputados. Portanto sabíamos que a votação seria na quarta-feira dia 29-04. Mas naquela tarde, a tentativa do sindicato em colocar um carro de som no espaço público do centro cívico causou alvoroço dos PMs e mobilização da tropa de choque para impedir seu acesso. Diversas viaturas cercaram as entradas possíveis e inevitavelmente houve o primeiro atrito. O nervosismo dos policiais, o clima de guerra, já davam mostras do que seria de fato o massacre do dia seguinte. Apenas com grande mobilização, um jogo de paciência, de centímetro em centímetro é que foi possível encaminhar o caminhão no interior de um local público, não sem sentir os efeitos de gás lacrimogêneo. Foi o ensaio geral para a quarta-feira. Convém notar que a própria instalação de banheiros químicos foi vetada no local.
Após o entrevero uma aparente boa notícia parecia por fim às expectativas iminentes de confronto. Os advogados do sindicato conseguiram uma liminar (em foto) que permitia a entrada dos manifestantes (conforme a capacidade da casa, cerca de 400 pessoas). Se o Sr. deputado Traiano e o judiciário paranaense corrompidos pelo Richa tivessem aceito o documento, provavelmente toda a barbárie do dia seguinte teria sido evitada, ao menos fora da Assembléia. Mas não, ele foi cassado de um dia para o outro, numa rapidez pouco habitual em se tratando do judiciário...
A praça de guerra. Antes de descrever o caos e a barbárie promovidos pelo secretário Francischini é coerente analisar a estratégia de “defesa” da Alep. Seguramente o cerco ao prédio foi planejado por semanas, uma organização militar de bloqueio e isolamento de perímetro visto somente em guerras. Haviam três barreiras humanas, a primeira formada por soldados e jovens cadetes, estes evitaram ao máximo agressões e o conflito. Logo atrás dos milhares de PMs estavam os militares mais preparados, o choque e a rotan, às centenas, lembravam os pretorianos romanos protegidos por armaduras, escudos e um blindado com canhões de água. A terceira e última barreira a ser vencida estava postada logo na rampa de entrada do prédio, dezenas de cães, alvoroçados e tão raivosos quanto o próprio secretário de “segurança”. O ataque ao cinegrafista da Band deu mostras do que poderia ter ocorrido caso rompêssemos o front. Até o teto dos edifícios estava guarnecido e um helicóptero dava apoio tático do deslocamento das massas para melhor direcionamento do Choque, além de despejar bombas de gás lacrimogêneo.
Às 14:30 da quarta-feira, após vencidas todas as tentativas diplomáticas para o acesso à votação e concomitante ao início da sessão o inevitável embate teve início com a tentativa de romper o cerco policial. A repressão foi inversamente proporcional ao avanço dos professores, desorganizados, numa frente única que facilitou o bloqueio. Não havia tática entre os servidores, apenas vontade e bravura rapidamente dispersada pelas bombas de efeito moral, balas de borracha e gás lacrimogêneo. O gás lacrimogêneo (cloroacetofenona) é considerado “a mais humana” das armas químicas, empregado desde a Primeira Guerra Mundial, afeta as mucosas do rosto (olhos, nariz e boca); é impossível manter-se mais de trinta segundos sob efeito do gás, a respiração é bloqueada, as lágrimas são estimuladas ao máximo e, em casos extremos pode provocar taquicardia. Os mais velhos foram afetados gravemente, com desmaios e até convulsões.
O conceito de batalha ou confronto pressupõe igualdade de forças no embate, o que não houve, foi um massacre. A tropa de choque dispersou a massa e isolou os organizadores na retaguarda em frente à prefeitura, há cerca de 200 metros da assembléia, onde os feridos eram levados e atendidos. A entrada de ambulância, a mais elementar condição de humanidade, também foi proibida. Durante duas horas, ininterruptamente as bombas e os tiros não cessaram. Sabemos que os apelos de clemência da esfera federal foram recusados pelo governo. Mesmo a comissão de senadores que veio a Curitiba na tentativa de pacificação teve sua atuação nula e impotente. A votação ocorreria a qualquer preço e ocorreu.
A história se repetiu. Em 1912 um coronel belicista como pretensões políticas em Curitiba, chamado João Gualberto, levou cordas e uma metralhadora para trazer o monge José Maria e os rebeldes do Contestado amarrados ou mortos a capital do estado. Os ferozes caboclos do Paraná, no entanto, resistiram, a metralhadora falhou e no combate à arma branca o coronel acabou morto pelos revoltosos. Para os desavisados, Gualberto ainda é o patrono da polícia militar do Paraná, mas já tem um concorrente a altura, o secretário Francischini. Naquela ocasião o messianismo uniu todos os revoltosos, a expectativa de ressurreição do Monge José Maria e o retorno de um exército encantado mantiveram a luta dos caboclos pela manutenção de seus direitos tradicionais, alheado a eles pela nova ordem capitalista e a monetarização da terra. Resistiram bravamente por mais três anos contra não apenas a polícia e milícias estaduais, mas contra a metade dos efetivos do exército de então, cerca de seis mil soldados, aviação e modernos armamentos de guerra.
A irmandade dos rebeldes do Contestado pode nos deixar algumas lições: ainda tinham a seu favor todo o fervor da experiência, que nós perdemos. Tinham a fé nas tradições, que trocamos pelo comodismo das telas de led e a revolução dos smarth fones. Em síntese, vale a máxima de Walter Benjamin, de que todo documento de cultura é também um documento de barbárie. A evolução da técnica traz consigo um índice avesso, o retrocesso da sociedade. Contudo, a experiência de choque sofrida pelos professores no “dia das lamentações” pode ser uma data emblemática. A virada de mesa, a tomada de consciência de que os professores fazem parte de uma forma muito peculiar de sacerdócio. A história do sacerdócio caracteriza-se como fonte do que Friedrich Nietzsche havia de chamar a Moral de Escravos. Nos velhos livros religiosos, verifica-se uma coincidência de ordenações, princípios e máximas que poderiam constituir a Cartilha do Escravo Perfeito.
O sacerdote foi muitas vezes o legislador, outras vezes, através de augúrios e oráculos, presidiu a paz como ordenou a guerra. Sacerdócio quer dizer ócio consagrado aos deuses. O ócio não é esse pecado que farisaicamente se aponta como a mãe de todos os vícios. Ao contrário, Aristóteles atribui o progresso das ciências no Egito ao ócio concedido aos pesquisadores e aos homens de pensamento e de estudo. A palavra ócio em grego é sxolé, donde se deriva escola. É o que nos ensina o filósofo e escritor modernista Oswald de Andrade.
Somente o sacerdócio é capaz de deter o programa de governo do Richa, o “choque” de gestão, finalmente posto em prática no dia 29-04. Não se trata de mera analogia entre o neoliberalismo e a tropa de choque (teoria e prática), mas de um plano de governo que somente agora, sublimado pelo gás lacrimogêneo, toma forma. Este foi apenas o primeiro round, o primeiro golpe contra a classe trabalhadora. Primeiro furta-se o fundo de previdência que mantém a liquidez do serviço público do estado, trata-se de um jogo de xadrez. O segundo golpe é novamente zerar os cofres, falir literalmente o serviço público, saúde, educação (à exceção da segurança, que dá sustentabilidade aos negócios burgueses, John Locke já o dizia). E a “única” opção, finalmente é vender todo o patrimônio estatal, as universidades serão o primeiro alvo. E enfim, voi-a-lá, a iniciativa privada entra em cena como o derradeiro salvador do capital. Xeque mate!
Não seria exagero equiparar o projeto do governo Richa com o laboratório executado no Chile de Pinochet e levado à exaustão por Margareth Thatcher na Inglaterra. Estranhamente o governador uniu o liberalismo excludente com as oligarquias do interior, a família Barros. Onde o governo federal combate a crise com remédios keynesianos, Richa investe na austeridade. No lugar dos estímulos à economia, aumento de impostos. Onde há desoneração da cesta básica, o Paraná aumenta o ICMS. É um governo que cumpre a risca cartilha neoliberal e o rolo compressor, a política de choque, apenas começou a sair do papel. Deter este processo é a função de todos nós.  
Leandro Konder, no belo livro “O marxismo na batalha da ideias”, comparou a História metaforicamente à escada rolante, pois certamente ela tem um sentido, um ritmo, uma direção determinada. Mas cabe ao homem ou a humanidade o processo de estacionar na escada rolante, descer ou acelerar o passo. Contudo, ainda assim ela continua no seu ritmo. A analogia é interessante para pensar as condições econômicas e sociais da conjuntura conservadora em que vivemos, um retrocesso inimaginável desde 1964. A greve geral é uma arma, está na modernidade como o mito de Josué no Antigo Testamento, isto é, a tentativa de parar o tempo, de deter um desenvolvimento catastrófico. “O mundo de ponta cabeça”, título célebre de Christopher Hill é também uma citação bíblica que denota a ação humana, terrena, capaz de mudar o curso da história.  

Referências:
ANDRADE, Oswald de. A crise da filosofia messiânica. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1970.
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.
KONDER, Leandro. O marxismo na batalha das ideias. São Paulo: Expressão Popular, 2009.
KOSELLECK, Reinhart. Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC-Rio, 2006.
LÖWY, Michael. Walter Benjamin: aviso de incêndio, uma leitura das teses sobre o conceito de História. Tradução de Wanda Nogueira Brant. São Paulo: Boitempo, 2005.

MARX, Karl. O 18 brumário de Luís Bonaparte. Tradução Nélio Schneider; prólogo Herbert Marcuse. São Paulo: Boitempo, 2011.

segunda-feira, 30 de março de 2015

A hora das crianças, Walter Benjamin

BENJAMIN, Walter. A hora das crianças. Tradução Aldo Medeiros. Rio de Janeiro: Nau Editora, 2015.

Introdução:
A intelligentsia antropofágica brasileira está consumindo a produção benjaminiana na última década assim como o fizera com Thompson, há vinte anos ou menos, e com Gramsci e Lukács nas décadas de 1980 e anteriormente. Não há nenhum empecilho nesta apropriação, desde que ela não seja concebida como fetichismo do próprio autor, como aponta a recente entrevista de uma das especialistas na obra de Walter Benjamin no Brasil, Jeanne Marie Gagnebin. Lembremos que Benjamin foi crítico da própria academia alemã quando teve sua Tese de livre docência ou Habilitation recusada pela Universidade de Frankfurt em 1925 – seguramente uma das maiores obras da filosofia no século XX . “O meu livro Origem do drama trágico alemão[1] é a prova provada da distância que separa a observação rigorosa dos métodos de investigação acadêmica mais autênticos do atual modo de estar do meio científico idealista-burguês: nem um universitário alemão lhe dedicou uma crítica”, queixou-se ao amigo Gershon Scholem, em carta.
A ironia é que Theodor Adorno recebeu a Habilitation em filosofia na mesma universidade que recusara a tese benjaminina. Ele cita em sua aula inaugural, repetidas vezes e com destaque ao livro de Benjamin. No verão de 1932, Adorno orientou um seminário sobre a Origem do drama barroco alemão. Naturalmente o livro sobre o Drama barroco alemão não é o objeto desta resenha, ele permanece até os dias de hoje obscuro em certos aspectos e inacessível em outros, pela sua linguagem hermética, cheia de alegorias e aforismos. Mesmo Hannah Arendt – conhecedora em detalhes da filosofia benjaminiana – define a obra como um livro maldito. Mas o que se propõe com esta introdução é analisar a recente obra traduzida ao português como parte integrante do pensamento de Benjamin, onde surgem didaticamente conceitos complexos, como a aproximação de materialismo histórico e messianismo, a crítica à concepção de tempo vazia e homogênea, meramente evolucionista da social-democracia alemã, à noção de progresso positivista, concepção que – conforme Benjamin – produziu uma avaliação equivocada do Fascismo e a impotência em deter a ascensão de Hitler.  
Os vinte e nove pequenos textos, redigidos em forma palestras radiofônicas, foram traduzidos diretamente das obras completas de Walter Benjamin em alemão, organizadas por Rolf Tiedermann. Foram escritas e narradas pelo próprio Benjamin entre os anos de 1927 e 1932, apresentados em duas rádios alemãs, em programas com cerca de vinte minutos de duração. Mas a pergunta que deve ser feita antes da análise o livro é por que Benjamin se interessou pela cultura infantil e juvenil num período catastrófico na Alemanha, de crises econômicas e de tensões políticas com a escalada nazista? Essa questão não é muito simples de ser elucidada, mas no final uma hipótese será esboçada. Nesse momento basta dizer que naquela época Benjamin passava por uma grave crise financeira, assim como a maioria da população alemã, e o rádio recém inaugurado naquele país poderia ser uma fonte de renda extra. Esta resposta parcial é insatisfatória, pois conhecemos o engajamento de Benjamin e sua crítica aos historicistas e a sua isenção despretensiosa, disfarçada com a erudição cansativa. A resposta, portanto, só pode ser evidenciada após um exame detalhado do livro.
O autor e a obra:
Sabe-se que Benjamin foi um dos mais eminentes pensadores do século XX, filósofo por formação, tradutor dos poemas de Baudelaire, historiador da cultura e em certo sentido também foi também teólogo. Mas poucos estudiosos legaram devida atenção ao seu perfil de brilhante... pedagogo. O leitor menos familiarizado com a obra benjaminiana certamente recebeu com surpresa a recente publicação. Mas isto não é novidade, pois Benjamin foi colecionador de livros infantis e brinquedos artesanais. Nas Obras escolhidas vol. 1, há três artigos sobre a história cultural do brinquedo e livros infantis; ocorre que esses pequenos textos - que fecham o livro – foram sublimados por trabalhos de maior vigor e repercussão, como as famosas “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica” e as “Teses sobre o conceito de história”, entre outros ensaios monumentais.  
Uma resenha do livro de Karl Gröber, chamado “Brinquedos infantis dos velhos tempos”, é particularmente significativa para se pensar a História cultural do brinquedo. No limiar do século XX havia uma dissonância entre o artesanal e o industrial e, segundo Benjamin (1994, p. 246), “uma nostalgia genuína: o desejo de recuperar o contato com um mundo primitivo, com o estilo de uma indústria artesanal que, no entanto, justamente nessa época (...) travava uma luta cada vez mais desesperada por sua sobrevivência”. A perda da experiência do qual fala Benjamin na era industrial, ou perda da aura,[2] também se reflete na criança.  
Para Walter Benjamin (1994, p. 253), “é a brincadeira, e nada mais, que está na origem de todos os hábitos”. Pois “o adulto alivia seu coração do medo e goza duplamente sua felicidade quando narra sua experiência. A criança recria essa experiência, começa sempre tudo de novo, desde o início”. Este “começar de novo”, a repetição que ocorre em toda brincadeira infantil, é o ponto de partida para a análise de A hora das crianças.
Rita Ribes Pereira, uma das organizadoras da edição, tem razão quando afirma que os textos radiofônicos de Benjamin apresentam de forma “miniaturizada” os grandes temas que perpassam sua produção intelectual, isto é, a junção de magia e técnica, arte e política, cultura e barbárie. Conceitos aparentemente contraditórios e antitéticos, mas que conservam em Benjamin uma “reversibilidade recíproca” entre teologia e política, da qual fala Michael Löwy. Esta aproximação pode ser observada numa alegoria nas notas preparatórias para as Teses sobre o conceito de história: “Meu pensamento se comporta em relação à teologia como o mata-borrão em relação à tinta. Ele está todo impregnado dela. Mas se fosse ocorrer segundo o mata-borrão, aí não sobraria nenhum resto do que está escrito” (BENJAMIN, 2012, p.181). Essa relação é evidente desde a estética do fascismo em Benjamin,[3] até na análise de temas aparentemente corriqueiros como uma pintura rupestre do período paleolítico, descrito como “um instrumento de magia”, ou um chocalho de recém-nascido é analisado não apenas como um brinquedo para estimular a audição, o primeiro sentido a ser excitado, mas como um instrumento “para afastar os maus espíritos” (BENJAMIN, 1994, p. 173; 250).
Imaginemos o deleite ao ligar o rádio e ouvir Benjamin, numa narrativa clara, objetiva, rica em detalhes e fontes e com um roteiro que lembra o clímax teatral ou de um romance. Benjamin é um autêntico narrador e descreve os temas da cultura alemã com tal propriedade que, pode-se dizer, cada palestra e vinte e cinco minutos é uma aula erudita. É certo que a maioria dos temas surge na produção benjaminiana destinada aos adultos, mas são adaptados às crianças com um primor didático e pedagógico raros. No geral, o livro se divide em três eixos temáticos, são eles: a dialética entre a tradição e o mundo moderno, onde Benjamin compara o dialeto berlinense, o comércio e as feiras de rua na Berlim antiga e moderna, o tradicional teatro de marionetes, os parques da cidade (que também estão presentes em obras como “Infância berlinense”, “Imagens do Pensamento”, e “Rua de mão única”.
A segunda parte na qual pode-se dividir a obra está relacionada à literatura e a cultura alemã daquele período. A crítica literária está no centro de toda sua produção sobre a arte, desde a tese de doutoramento sobre o Romantismo alemão, uma monografia em torno de Schlegel e Novalis, até nos ensaios sobre os escritores Marcel Proust, Franz Kafka, Nicolai Leskov e Charles Baudelaire, além é claro de uma biografia de Goethe e um ensaio sobre suas Afinidades eletivas. De fato, o pequeno texto intitulado Doutor Fausto é uma miniatura do clássico de Goethe, em linguagem apropriada ao público juvenil. A literatura fantástica, os contos de horror, que tanto seduziram Benjamin, estão contidos em A Berlim demoníaca, uma descrição tão próxima do original (do escritor E.T.A. Hoffmann) que faz o leitor com maior sensibilidade sentir arrepios (imagine-se o ouvinte). Outros temas típicos da cultura berlinense surgem nos mistérios de Caspar Hauser, na história dos ciganos e na prática dos bandoleiros na antiga Alemanha.
Mas o objeto das narrativas de Benjamin não é apenas a cultura erudita, pelo contrário. O popular ocupa lugar de destaque no livro, assim como o grotesco, as formas que as coisas caídas no esquecimento assumem, elas estão deformadas. Essa preocupação com a arte popular reapareceu posteriormente num ensaio sobre o historiador e colecionador Eduard Fuchs, pioneiro na utilização de fontes alternativas ou pouco ortodoxas, como a caricatura e o erotismo, na análise da sociedade burguesa europeia após 1848. O grotesco aparece como “a mais elevada potenciação da imaginação sensível”. Há uma clara preocupação em intercalar a cultura “superior” e aquela das classes populares, entre Goethe e Theodor Fontane há narrativas sobre a Borsig (então a maior indústria alemã) e uma visita à fábrica de latão, numa descrição tão sublime que por alguns instantes somos levados no tempo e no espaço para os corredores quentes e barulhentos da Alemanha de Weimar. Da mesma forma, na descrição de Nápoles, pode-se sentir o estranhamento de Benjamin pelas ruas desorganizadas daquela cidade e o odor dos produtos frescos no mercado.  
Pedagogicamente é possível apreender alguns conceitos nesse ínterim cultural. Na etimologia da palavra, pedagogia significa “ensinar às crianças”, mas como ensinar? Imaginemos começar uma aula sobre os Processos contra as bruxas com a introdução da história de João e Maria e a desconstrução da imagem pejorativa que as bruxas herdaram da Idade Média. Aparentemente uma análise inocente, o texto mescla os processos da inquisição e o famoso Malleus Meleficarum (O martelo das feiticeiras) como manual para descobrir e punir os hereges. Mas se vocês quiserem um esboço rápido, de certo modo uma introdução à vida das bruxas – diz Benjamin – “então vocês devem se dedicar à leitura da peça ‘Macbeth’, de Shakespeare”.  Num sentido semelhante, a narrativa sobre a queda da Bastilha, a antiga prisão nacional da França, além de fazer toda a cronologia da famosa fortaleza para presos políticos, Benjamin descreve documentalmente as curiosas formas de comunicação que os prisioneiros inventavam, até as lendas do homem da máscara de ferro. Com notoriedade Benjamin (2015, p. 99) conclui que “as crianças querem evidentemente conhecer tudo. E se os adultos só mostram a elas o lado bem comportado e correto da vida, elas logo vão querer conhecer o outro lado por si mesmas”.
 Por fim, o terceiro e último eixo temático representa ao mesmo tempo um enigma e a chave para compreensão da motivação de Benjamin em falar ao público infantil. As últimas dez narrativas radiofônicas abordam temas distintos dos anteriores, repentinamente. Dois textos rompem com a tradição cultural e os costumes alemães, são eles Cagliostro – um conhecido charlatão e vigarista europeu do século XVIII –, e As fraudes em filatelia, ou as falsificações entre os colecionadores de selos. Lembremos que a interrupção não é algo que ocorre a esmo na filosofia benjaminiana, ela tem um objetivo, assim como as pausas ou cesura no teatro de Brecht. Oposta à concepção estritamente quantitativa da temporalidade, que percebe o movimento da história como um continuum de aperfeiçoamento constante, de evolução irreversível, da acumulação crescente, da modernização cujo motor reside no progresso científico, técnico e industrial, em suma como contraponto ao paradigma do progresso, Benjamin valoriza as rupturas, o descontínuo, através do conceito de “origem”.[4] A “origem” é um protofenômeno no sentido teológico, quer seja ele o Paraíso ou o comunismo primitivo, uma idade edênica e igualitária na Terra. Literalmente são “saltos” para fora da continuidade histórica linear que rompem com o desenvolvimento meramente evolucionista da História. Voltaremos ao conceito de “origem” ao final.
Na sequência aos textos sobre vigarices e fraudes, Benjamin parece anunciar uma catástrofe com as narrativas sobre “A destruição de Herculano e Pompeia, O terremoto de Lisboa, O incêndio do teatro de Cantão, O desastre ferroviário da ponte do Rio Tay, A enchente do rio Mississipi em 1927” e conclui com as curiosas “Histórias reais sobre cães”, onde expõe a sensibilidade e o instinto do animal para reconhecer caráter, para aprender, e até para prever “terremotos”, antes mesmo dos sismógrafos. Esses textos possuem uma conexão e um objetivo e podem ser compreendidas desde que o método benjaminiano seja desvendado.
No final da década de 1920 a problemática do fascismo às portas do poder ganha destaque nas obras de Benjamin. Para romper com a reificação do moderno trabalhador industrial, com a crença ilimitada no progresso da técnica, com a concepção de tempo linear, homogêneo e vazio, para “mobiliar para a revolução as energias da embriaguês”, Benjamin desenvolve o conceito de “interrupção messiânica”. É esse conceito de interrupção da história, associando luta de classes e teologia (marxismo e messianismo), também definido como cesura, que interliga toda sua produção intelectual. Era necessário explodir o continuum da história, afinal
(...) se a eliminação da burguesia não estiver efetuada até um momento quase calculável do desenvolvimento econômico e técnico (a inflação e a guerra de gases o assinalam), tudo estará perdido. Antes que a centelha chegue à dinamite, é preciso que o pavio que queima seja cortado (BENJAMIN, 1995, p. 46).

O texto acima pertence ao aforismo intitulado “Aviso de incêndio”, presente em Rua de mão única, de 1928. O método alegórico privilegia o uso de imagens, como ocorre no livro das Passagens. “A alegoria jamais coincide com a verdade; ou é uma meia verdade ou uma verdade e meia”, segundo o mestre nesse estilo literário, Karl Kraus. O fragmento é uma das primeiras formulações do que Michael Löwy chama de “crítica teológica” ao tempo mecânico, e constitui um dos fundamentos filosóficos de sua rejeição às ideologias do progresso. Para Walter Benjamin, não se pode pensar nenhum acontecimento empírico isolado que não tenha uma relação necessária com a constelação temporal específica em que acontece. Mas o tempo da história é diferente do tempo da mecânica, ele pondera. O tempo dos calendários ou dos ponteiros do relógio não contém o que ele chama de “tempo preenchido”, pois são mecanicamente ascendentes, quantitativos, em detrimento do tempo vivido, ou da experiência. “A esta ideia do tempo preenchido chama-se na Bíblia – e esta é a sua ideia histórica dominante – o tempo messiânico” (BENJAMIN, 2011, p. 262).  
Esta ideia de interrupção pode ser melhor compreendida em sintonia com o conceito de “origem” (ursprung): “O que é próprio da origem [e não gênese] nunca se dá a ver no plano factual, cru e manifesto. O seu ritmo só se revela a um ponto de vista duplo. A origem (...) tem a ver com a pré e pós-história dos fatos” (BENJAMIN, 2011, p. 34). O conceito de “origem” é certamente bastante complexo e obscuro. Segundo filósofo Romero Freitas, um dos especialistas na obra de Walter Benjamin no Brasil, uma estratégia interessante é entendê-lo como uma espécie de “estrutura” histórica, algo como uma ideia platônica, porém historicizado, ou seja, a ideia em Benjamin não é uma mera representação do espírito, mas possui uma realidade sensível. Para o filósofo da Unicamp Márcio Seligmann-Silva (2008), ursprung – literalmente proto-salto – significa saltar e fazer pontes entre fragmentos da redenção, isto é, uma rememoração do evento original que se transforma em tradição cultural. Jeanne Marie Gagnebin (1999, p. 10) reitera que ursprung designa a origem como salto [Sprung] para fora da sucessão cronológica niveladora e linear tradicional; pelo seu surgir a origem quebra a linha do tempo.
Uma vez compreendido o método benjaminiano, sobretudo o conceito de “origem”, pode-se pensar numa hipótese para suas motivações em falar ao público juvenil. Os textos catastróficos que predominam na terceira parte do livro parecem anunciar o próprio Apocalipse, com a chegada de Hitler ao poder. Antes destes “terremotos”, surgem deliberadamente os artigos sobre trapaceiros, charlatães, falsificadores (Cagliostro); é como se Benjamin construísse, em forma de aforismos, a imagem de um impostor e a impotência em deter sua ascensão. A imagem alegórica dos cães, que surgem em pelo menos três textos, evidencia a perda da percepção na era moderna, com a experiência de choque com as guerras e imorais com os políticos. Lembremos da influência freudiana em Benjamin, mas não a mera reprodução do inconsciente pulsional, pelo contrário, ele busca resgatar o inconsciente óptico, tátil, perceptivo, como demonstra o livro de Sérgio Paulo Rouanet sobre os itinerários freudianos em Walter Benjamin, bem intitulado Édipo e o Anjo.  
Em suma, boa parte das narrativas infantis sintetiza o centro da filosofia benjaminiana, desenvolvida no ensaio sobre Eduard Fuchs e nas Teses sobre o conceito de história. O conceito de que todo documento de cultura é também um documento de barbárie. Ele sabia do fracasso iminente em deter os nazistas: “Nossa geração teve de pagar para saber, pois a única imagem que irá deixar é a de uma geração vencida. Será este o seu legado aos que virão” (Teses). As crianças representam assim a esperança; suas tradições e cultura sintonizam a vontade utópica, na qual o sonho primordial e a “luz do futuro” se fundem.



[1] Trauerspiel deveria traduzir-se, literalmente, por “drama lutuoso”, que não corresponde a nenhuma designação do gênero em português. Optei por “drama trágico” para fugir à tradução, comum em línguas românticas, de “drama barroco” que não está no termo original nem designa também nenhum gênero dramático particular (nota do tradutor João Barrento). Neste texto utiliza-se o termo “drama trágico”, seguindo as explicações de Barrento; contudo, alguns autores ainda fazem uso do termo drama barroco, e outros preferem não traduzi-lo, mantendo o termo em alemão: “Origem do trauerspiel alemão”.

[2]  Relacionado à arte, o conceito de aura visa estabelecer a distinção entre a reprodução tradicional da obra de arte e sua reprodução técnica. É no “aqui-e-agora” do original que consiste sua autenticidade, originalidade e inacessibilidade.
[3] Benjamin (2013, p. 163) vê a ascensão do fascismo na Alemanha não apenas em termos políticos ou econômicos: em sua “Crônica dos desempregados alemães”, afirma que o fascismo “é algo como sua imagem inversa, o aparecimento do anticristo. Como se sabe, este arremeda a bênção que foi anunciada como messiânica. Assim sendo, o Terceiro Reich arremeda o socialismo”.
[4] “A origem não é só ‘Entstehung’ (um surgimento, um nascimento milagroso), mas sobretudo, ‘Ursprung’ (momento original que sempre se renova). Daí a frase misteriosa de Walter Benjamin: ‘Ursprung ist der Ziel’ (A origem é o alvo); ou para citar Ernst Bloch “A Gênese é o fim”.

Referências bibliográficas:
BENJAMIN, Walter. O conceito de crítica de arte no Romantismo Alemão. Tradução e prefácio de Márcio Seligmann-Silva. São Paulo: Iluminuas, 1993.
_____. Magia, técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura; tradução Sergio Paulo Rouanet; prefácio Jeanne Marie Gagnebin. São Paulo: Brasiliense, 1994.
_____. Rua de mão única. Obras escolhidas volume 2. São Paulo: Brasiliense, 1995.
_____. Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo. Obras escolhidas volume 3. São Paulo: Brasiliense, 1996.
_____. Passagens. Belo Horizonte: UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2009.
_____. Ensaios Reunidos: escritos sobre Goethe. São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34, 2009.
_____. Origem do drama trágico alemão. Edição e tradução João Barrento. Belo Horizonte: Autentica, 2011.
_____. O capitalismo como religião. Organização Michael Löwy; tradução Nélio Schneider, Renato Pompeu. São Paulo: Boitempo, 2013.
_____. O anjo da história. Organização e tradução João Barrento. Belo Horizonte: Autêntica, 2012.
_____. Imagens do pensamento, sobre o haxixe e outras drogas. Edição e tradução de João Barrento. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.
_____. A hora das crianças (narrativas radiofônica). Tradução Aldo Medeiros. Rio de Janeiro: Nau Editora, 2015.