terça-feira, 19 de julho de 2016

ESCOLA SEM PARTIDO: A NOVA AVENTURA DE KARL MARX CONTRA O BARÃO DE MÜNCHHAUSEN

Há pelo menos dois séculos se discute a suposta isenção ou imparcialidade – o método – em ciências humanas. Ou quase quatro séculos se pensarmos em Descartes e o more geométrico do “Discurso do método” (1637). Se optarmos por comparar os métodos científicos, colocando lado a lado marxismo e positivismo, ficará evidente que o discurso da Escola sem partido converte-se sorrateiramente numa formidável censura. Uma vez comparados, torna-se mister citar a anedota do Barão de Münchhausen, este herói picaresco e dialético que retorna de tempos em tempos para reviver a batalha perdida para Marx.
Condorcet, filósofo iluminista e contemporâneo da Revolução Francesa, é o pai do conceito de Positivismo.  Condorcet estava inserido no pensamento racionalista e iluminista, no anticlericalismo francês típico da grande Revolução, buscava assim uma ciência objetiva,
relacionada à matemática e física, visando escapar dos preconceitos das classes dominantes de então: a aristocracia e o clero. A ciência positiva deveria se libertar de todos os dogmas políticos ou religiosos, vistos como preconceito e obscurantismo. Mas o primeiro a utilizar o termo “ciência positiva” foi o socialista utópico Saint-Simon. O Positivismo em Condorcet como em Saint-Simon tem um aspecto utópico, crítico e busca a superação da subjetividade. Mas com Augusto Comte, discípulo de Saint-Simon, o conceito passa a ser conservador e distópico. A sociedade deveria ser interpretada tal como uma equação matemática ou lei da gravidade, ou do movimento da Terra em torno do Sol. (LÖWY,
Hoje, sabemos o quanto esse pensamento tem de simplicidade e até ingenuidade, mas, no final dos oitocentos, o positivismo influenciou sociólogos do calibre de um Émile Durkheim e historiadores como Leopond von Ranke. É bem conhecida a ilusão de Ranke, que almejava conhecer o passado “como de fato foi”, como algo fixo e cristalino. Mas o que é mais importante e conveniente compreender sobre o positivismo é a doutrina que lhe é subjacente: a ideia do progresso como algo inevitável e contínuo, como aperfeiçoamento linear da história e da humanidade. Justamente nesse ponto o positivismo fracassa enquanto método, pois ele reconhece apenas a evolução da técnica, do capitalismo, da indústria e não os retrocessos da sociedade. (BENJAMIN, 1994, 2012).
No clássico “As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen”, Michael Löwy examina a relação entre visões sociais de mundo (ideológicas ou utópicas) e conhecimento, no domínio das ciências sociais, a partir de uma discussão crítica com as principais tentativas de elaboração de um modelo de objetividade científica que surgiram no seio do positivismo, do historicismo e do marxismo. A crítica à disfarçada ou deliberada tentativa de isenção ou imparcialidade, da ciência livre de julgamentos de valor ou de classe, sobretudo nos positivistas, mas também em Max Weber, quando este afirma que na esfera das ciências sociais, uma demonstração científica metódica que pretende ter atingido seu objetivo, deve poder ser reconhecida como exata “da mesma maneira por um chinês”, surge de forma erudita num diálogo entre a utopia e as ideologias, para que o método sociológico torne-se não menos ideológico, mas sim, mais cristalino e objetivo.
A crítica tem um elemento bem humorado quando Löwy relaciona o “esforço de objetividade” da sociologia positivista, de Durkheim e seus discípulos, como uma ilusão ou mistificação, com a anedota do Barão de Münchhausen. Este herói picaresco, tal como os positivistas, quando se vê atolado num pântano em que ele e seu cavalo estavam sendo tragados e sem a ajuda de ninguém, agarrou seus próprios cabelos e, por meio deles, puxou-se para cima, trazendo consigo seu cavalo entre as pernas. Com esta alegoria bem humorada, Löwy (1995, p. 32) conclui “que os que pretendem ser sinceramente seres objetivos, são simplesmente aqueles nos quais as pressuposições estão mais profundamente enraizadas”.
A metáfora ou alegoria com o Barão de Münchhausen evidencia a estreita subjetividade nas ciências humanas, mesmo sob a máscara da isenção e imparcialidade. As ideologias de classe estão presentes mesmo em autores que advogam a objetividade da “ciência pura”. O proletariado, todavia, segundo Löwy não necessita desse aparado ideológico para provar sua verdade.
Na conclusão de As aventuras de Karl Marx, Michael Löwy resgata uma metáfora de Rosa Luxemburgo e compara o cientista social ao pintor de uma paisagem, pois a pintura depende em primeiro lugar do que o artista pode ver, isto é, do observatório onde ele se acha inserido. Mas pondera e afirma que o observatório ou mirante é o ponto de vista de classe, e, quanto mais elevado, permite ampliar o horizonte e perceber a paisagem em toda a sua extensão. O observatório mais alto é, naturalmente, o ponto de vista do proletariado. Pois a verdade é para o proletariado uma arma indispensável a sua auto-emancipação, ao contrário da burguesia que tem necessidade de mentiras ou ilusões para manter seu poder, o proletariado tem necessidade de verdade...
“A verdade é sempre revolucionária”, a frase de Antonio Gramsci surgiu quase vinte anos antes, como epígrafe do livro Método dialético e teoria política, de 1978. Esta obra é o prólogo, menos elaborado e sofisticado de As aventuras de Karl Marx. No entanto, já no grundisse (esboço) de 1978 a crítica à sociologia positivista como “uma simplicidade evangélica” fica explicitada. A tentativa epistemológica de assimilação da sociedade à natureza, da sociedade regida por leis naturais, invariáveis e independentes da vontade e da ação humana, “sob o impacto do marxismo, o mito positivista de uma ciência social neutra e assexuada como os anjos da teologia medieval foi severamente abalado” (LÖWY, 1978, p. 17).

Referências:
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.
LÖWY, Michael. Método dialético e teoria política; tradução Reginaldo di Piero. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.
_____. As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen: marxismo de positivismo na sociologia do conhecimento. São Paulo: Cortez, 1994.
_____. Ideologias e ciência social: elementos para uma análise marxista. 19. ed. São Paulo: Cortez, 2010.


segunda-feira, 21 de março de 2016

CULTURA CABOCLA: O MESSIANISMO COMO ELEMENTO DA CULTURA POPULAR E ERUDITA NA GUERRA DO CONTESTADO (19012-1916)

Resumo: Há uma estreita relação entre os movimentos de resistência e cultura popular com o messianismo. Este artigo examina essa aproximação a partir do conceito dialético benjaminiano de “origem” (ursprung). A “origem” é um protofenômeno no sentido teológico, quer seja ele o Paraíso ou o comunismo primitivo, uma idade edênica e igualitária na Terra. Literalmente são “saltos” para fora da continuidade histórica linear que rompem com o desenvolvimento meramente evolucionista da História. A quebra da continuidade histórica não volta-se exclusivamente ao passado idealizado, mas também para o futuro, à utopia, ao millenium. Entre a experiência no passado e a expectativa no porvir há o que pode ser denominado de “tempo messiânico”. No contexto da História Cultural, pode-se dizer que o messianismo está inserido tanto na cultura erudita (nas filosofias de Walter Benjamin e Ernst Bloch), como na cultura popular (entre os caboclos do Contestado, no folclore). Estes elementos constituem uma hipótese de circularidade cultural.

 Palavras-chave: Guerra do Contestado; Messianismo; Circularidade cultural.

Na íntegra em: http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/28888/16210  




 

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

MARCELO MONTEIRO: UM ESCULTOR À MARGEM DO CAPITALISMO

Os pontos destacados acima – Realismo [pouco grotesco], a perda da Aura, o Surrealismo – são, a meu ver, os pontos-chave para a apreensão das esculturas e do pensamento de Monteiro. Mas não são os únicos devido à originalidade de Marcelo Monteiro, que tende a escapar de qualquer escola artística, constituindo assim seu próprio estilo, marcado pela revolta e melancolia. Se fosse possível condensar sua mensagem em uma imagem alegórica[1], diria que suas esculturas nos olham como a Medusa da mitologia grega. Mas trata-se de uma Medusa às avessas, em vez de petrificar aquele que a encara, as esculturas de Monteiro buscam justamente o inverso, isto é, devolver a aura ao ser materializado, ao autômato mecanizado, sem sentimentos.
[...]

[1] O sentido literal não é o sentido verdadeiro. Deve-se aprender uma outra leitura que busque sob as palavras do discurso seu verdadeiro pensamento, uma prática que os estóicos chamam de hyponoia (subpensamento) e à qual Filo de Alexandria dará seu nome definitivo de alegoria (de allo, outro e agorein, dizer)” (GAGNEBIN, 1999, p. 34).



domingo, 9 de agosto de 2015

“ESTETIZAÇÃO DA POLÍTICA E POLITIZAÇÃO DA ARTE”: A ESTÉTICA DO FASCISMO NAS OBRAS DE WALTER BENJAMIN

Resumo: O artigo examina a ascensão do fascismo na Alemanha a partir da estética de Walter Benjamin e propõe, ao final, um diálogo com Ernst Bloch. O método visa escapar de interpretações meramente econômicas que supostamente explicam a chegada de Hitler ao poder. Procura-se um campo semântico mais vasto, dialético, como os conceitos utilizados por Benjamin de messianismo, alegoria e origem (ursprung). A “origem” é um protofenômeno no sentido teológico, quer seja ele o Paraíso ou o comunismo primitivo, uma idade edênica e igualitária na Terra. Literalmente são “saltos” para fora da continuidade histórica linear que rompem com o desenvolvimento meramente evolucionista da História. Com uma catástrofe iminente era necessário explodir o continuum da história.


Palavras-chave: Walter Benjamin, Dialética, Materialismo Histórico, Messianismo, Fascismo.


sexta-feira, 26 de junho de 2015

Amizade, um presente

A um amigo "ausente"

Meu amigo ausente
És mais presente
Do que imaginas.

Sinto sua doce presença
Na mais simples
Flor da bonina.

No vento atrevido
Que farfalha as folhas da amora
Sinto que me namoras.

Nos mais variados
Sabores do queijo Minas
A vontade de roubar teus beijos me domina.

No olhar de tesoura
Que corta o céu e a montanha
A vontade de te ter me entranha.

No toque macio
Das roupas de cama
Sinto que me amas.

Se és, assim, tão presente
Como, ainda, tens coragem
De te declarares ausente?

(Autora: N.L.A.C)

domingo, 21 de junho de 2015

Aforismos para a história de um jaleco

Durkheim pensou ter encontrado as formas elementares da religião no sistema totêmico. Foi contestado, mas em partes permanece correto. Objetos carregam a aura e em alguns casos, a própria personalidade. Um objeto único, sendo arte, mantém o valor de culto, disse Benjamin. Pode ser um jaleco um totem? Talvez. Uma representação, sem dúvida.

“Leiam-me devagar”, advertiu Nietzsche na Aurora. Pois, um aforismo jamais coincide com a verdade. Ou é uma meia verdade, ou uma verdade e meia. Proclamou Karl Kraus, mestre no estilo alegórico. Alegorias e aforismos são herméticos, escondem a verdade, decifrada apenas por aqueles que têm o espírito livre, de verdades.

Medicina era a quimera de mamãe, pobre coitada. Mas o branco, tal como entre os símbolos de Cruz e Souza penetrou no inconsciente. A pureza branca transformou-se em sangre pútrido, no açougue. Conhecemos Sífiso e sua maldição do eterno retorno, segundo Engels. Mas na ânsia de ser Prometeu e desafiar os deuses na terra e a servidão humana (ou seria o próprio Fausto? Oh dúvida) buscou a profana ciência. O vermelho púrpuro encontrou ressonância no vermelho socialista.

De linho e rosas brancas vais vestido,
Sonho virgem que cantas no meu peito!...
És do Luar o claro deus eleito,
Das estrelas puríssimas nascido.
 (Cruz e Souza)

O jaleco sujo de carne animal foi para o laboratório de anatomia humana. Não poderia haver lugar melhor para compreender a vida e a morte. Odor, formol. Tão materialista, não compreendia a alma e as formas. E ela chegou como um anjo branco, com os mesmos sonhos e desejos. “Demora eternamente, és tão bela”. Dividiu a história tal como Cristo ou a grande Revolução. Paz, pureza, virgem. Do romance ao drama homérico e ao soneto de despedida, de Vinicius, de dor, de saudade.   

 “Nessa altura despertará também a pobre verdade aqui contida, que um dia se picou na antiquada roca de fiar, quando, sem autorização para isso, quis tecer para si próprio, numa arrecadação cheia de talha velha, uma beca professoral.” (BENJAMIN).

É possível substituir o amor pela ciência ou pela política? Ciência como vocação, Weber adverte, também é preciso ter “paixão e devoção apaixonada a uma ‘causa’, ao deus ou ao demônio que a espera”. Livros e putas podem-se levar para cama. Livros e putas tem entre si, desde sempre, um amor infeliz. Livros e putas – notas de rodapé são para uns o que são, para outras, notas de dinheiro na mesa. (Rua de mão única, Benjamin).

Sedex. O jaleco se foi. Habitar outro corpo, com o mesmo calor de adolescente e ficou o vazio. Do realismo para o barroco. Marília sem Dirceu. Os livros e o vinho suplantam momentaneamente a alma vazia. Busca-se calor noutros panos, bocas, corpos... vazios. Utilitarismo econômico mata a vida. Bares cheios, almas vazias.


E para o ódio afogar e o ócio ir entretendo
Desses malditos que em silêncio vão morrendo.
Em seu remorso Deus o sono havia criado;
 O Homem o Vinho fez, do Sol filho sagrado!
  (Sainte-Beuve, Abel e Caim). Blasfêmia.

Nem o tempo messiânico preenche a parusia. Busca-se a ressurreição. Domou o destino pelas mãos, perdeu a felicidade entre os dedos.

Ainda é cedo. Vento no litoral. Pistas. Labirinto. Biografia. 

segunda-feira, 4 de maio de 2015

29-04-2015 O “CHOQUE” DE GESTÃO DE BETO RICHA

Sem a ideia de uma vida futura, seria difícil ao homem suportar a sua condição de escravo. Daí a importância do messianismo na história do patriarcado (Oswald de Andrade).

Na medida em que a humanidade desloca o sentido da história, do passado e presente, para um futuro indeterminado, quer seja o paraíso, a sociedade sem classes ou a crença ilimitada no progresso técnico, ela tende a negar o presente e as lutas da ordem do dia. Mesmo Marx, no Dezoito brumário fala em “poesia do futuro” e não em resgatar as energias atadas na tradição e na experiência. Trata-se de uma filosofia da história que, com Santo Agostinho ganhou fundamentação prática, é o processo de “esticar o círculo” da história grega e romana, o tempo do eterno retorno; a história desde Agostinho tem um sentido linear, um fim, uma meta, é escatológica, portanto. É a partir deste viés que os fatos ocorridos em Curitiba em 29-04-015 podem ser compreendidos profundamente e não apenas em essência. Na medida em que o governador Beto Richa começa a implantar seu projeto de desestatização, a engenharia do estado mínimo neoliberal, ele ameaça a própria noção de futuro da classe trabalhadora, de esperança. Reside aí um grande risco ao operariado, mas também o seu revés, a união de toda a classe em uníssono, pois o messias moderno não vem como redentor dos céus, ele é a própria humanidade redimida enquanto coletividade (LÖWY, 2005).   
É compreensível a busca de esperança no futuro. Walter Benjamin (1994), outro autor messiânico, no ensaio “Experiência e pobreza”, afirma que “nunca houve experiências mais radicalmente desmoralizadoras que a experiência estratégica pela guerra de trincheiras, a experiência econômica pela inflação, a experiência do corpo pela fome, e experiência moral pelos governantes”. A esta última frase poderíamos acrescentar “experiência imoral dos governantes”. Pois bem, é a partir desta crise da modernidade, de tradições, experiência, da capacidade de narrar que, pode-se dizer, a classe trabalhadora perdeu sua capacidade de odiar, de luta, de orgulho. Engels, em Condição da classe trabalhadora na Inglaterra, narra o enfrentamento aberto de proletários com burgueses durante a Revolução Industrial. Edward Thompson, em Costumes em comum, descreve as formas sutis e engenhosas dos trabalhadores “persuadirem” os patrões por melhores condições de trabalho, com cartas de ameaças ou mesmo atentados. George Rudé, em A multidão na história, demonstra como os motins foram eficazes na regulação do preço do pão e (pasme) até do dizimo da paróquia. Auguste Blanqui deixou um espectro de temor entre os franceses durante todo o século XIX e a Comuna de Paris marcou a primeira grande experiência de autogestão da classe trabalhadora, fenômeno que Marx descreveu como “um assalto aos céus”!
Mas com o “avanço” técnico e a ilusão do progresso a classe trabalhadora perdeu sua capacidade de odiar, de crítica; com as migalhas trabalhistas tornou-se passiva; com a social democracia que provoca miopia avançada, tornou-se iludida no sonho de aburguesar-se. Ao deslocar o eixo temporal histórico do passado para o futuro (KOSELLECK, 2009), o proletariado (incluso aí os professores, jamais nos esqueçamos disso) não mais retira suas energias da tradição, mas da esperança; dos descendentes libertados e não dos antepassados escravizados. Portanto temos nossa parcela de culpa nos eventos supracitados, o governador Beto Richa é apenas o operador da “mão invisível do mercado”.
Dito isto, vou descrever factualmente os três dias de batalha em Curitiba e, ao final, retornar à tese inicial e expor a verdadeira motivação, o projeto neoliberal enfim posto em prática no fatídico 29-04. Saímos de Maringá na noite de segunda (27-04), num ônibus fretado pelo sindicado dos servidores da UEM. Entre os presentes estavam alunos de diversos cursos, servidores e sindicalistas, jovens de dezoito anos e senhores de 60. Chegamos na manhã de terça na capital e montamos acampamento na praça em frente à Assembléia, no centro cívico de Curitiba. Havia, de antemão, um clima bastante tenso, pois soubemos que naquela madrugada os carros de som do sindicato de professores foram guinchados à força pela tropa de choque da PM e os poucos que resistiram à investida na calada da noite foram reprimidos com truculência e gás de pimenta.
Na tarde de terça o projeto de lei número 252-2015 passou pela análise de comissão e justiça e o revisor pediu prazo de 24 horas para entregar o documento final para votação dos deputados. Portanto sabíamos que a votação seria na quarta-feira dia 29-04. Mas naquela tarde, a tentativa do sindicato em colocar um carro de som no espaço público do centro cívico causou alvoroço dos PMs e mobilização da tropa de choque para impedir seu acesso. Diversas viaturas cercaram as entradas possíveis e inevitavelmente houve o primeiro atrito. O nervosismo dos policiais, o clima de guerra, já davam mostras do que seria de fato o massacre do dia seguinte. Apenas com grande mobilização, um jogo de paciência, de centímetro em centímetro é que foi possível encaminhar o caminhão no interior de um local público, não sem sentir os efeitos de gás lacrimogêneo. Foi o ensaio geral para a quarta-feira. Convém notar que a própria instalação de banheiros químicos foi vetada no local.
Após o entrevero uma aparente boa notícia parecia por fim às expectativas iminentes de confronto. Os advogados do sindicato conseguiram uma liminar (em foto) que permitia a entrada dos manifestantes (conforme a capacidade da casa, cerca de 400 pessoas). Se o Sr. deputado Traiano e o judiciário paranaense corrompidos pelo Richa tivessem aceito o documento, provavelmente toda a barbárie do dia seguinte teria sido evitada, ao menos fora da Assembléia. Mas não, ele foi cassado de um dia para o outro, numa rapidez pouco habitual em se tratando do judiciário...
A praça de guerra. Antes de descrever o caos e a barbárie promovidos pelo secretário Francischini é coerente analisar a estratégia de “defesa” da Alep. Seguramente o cerco ao prédio foi planejado por semanas, uma organização militar de bloqueio e isolamento de perímetro visto somente em guerras. Haviam três barreiras humanas, a primeira formada por soldados e jovens cadetes, estes evitaram ao máximo agressões e o conflito. Logo atrás dos milhares de PMs estavam os militares mais preparados, o choque e a rotan, às centenas, lembravam os pretorianos romanos protegidos por armaduras, escudos e um blindado com canhões de água. A terceira e última barreira a ser vencida estava postada logo na rampa de entrada do prédio, dezenas de cães, alvoroçados e tão raivosos quanto o próprio secretário de “segurança”. O ataque ao cinegrafista da Band deu mostras do que poderia ter ocorrido caso rompêssemos o front. Até o teto dos edifícios estava guarnecido e um helicóptero dava apoio tático do deslocamento das massas para melhor direcionamento do Choque, além de despejar bombas de gás lacrimogêneo.
Às 14:30 da quarta-feira, após vencidas todas as tentativas diplomáticas para o acesso à votação e concomitante ao início da sessão o inevitável embate teve início com a tentativa de romper o cerco policial. A repressão foi inversamente proporcional ao avanço dos professores, desorganizados, numa frente única que facilitou o bloqueio. Não havia tática entre os servidores, apenas vontade e bravura rapidamente dispersada pelas bombas de efeito moral, balas de borracha e gás lacrimogêneo. O gás lacrimogêneo (cloroacetofenona) é considerado “a mais humana” das armas químicas, empregado desde a Primeira Guerra Mundial, afeta as mucosas do rosto (olhos, nariz e boca); é impossível manter-se mais de trinta segundos sob efeito do gás, a respiração é bloqueada, as lágrimas são estimuladas ao máximo e, em casos extremos pode provocar taquicardia. Os mais velhos foram afetados gravemente, com desmaios e até convulsões.
O conceito de batalha ou confronto pressupõe igualdade de forças no embate, o que não houve, foi um massacre. A tropa de choque dispersou a massa e isolou os organizadores na retaguarda em frente à prefeitura, há cerca de 200 metros da assembléia, onde os feridos eram levados e atendidos. A entrada de ambulância, a mais elementar condição de humanidade, também foi proibida. Durante duas horas, ininterruptamente as bombas e os tiros não cessaram. Sabemos que os apelos de clemência da esfera federal foram recusados pelo governo. Mesmo a comissão de senadores que veio a Curitiba na tentativa de pacificação teve sua atuação nula e impotente. A votação ocorreria a qualquer preço e ocorreu.
A história se repetiu. Em 1912 um coronel belicista como pretensões políticas em Curitiba, chamado João Gualberto, levou cordas e uma metralhadora para trazer o monge José Maria e os rebeldes do Contestado amarrados ou mortos a capital do estado. Os ferozes caboclos do Paraná, no entanto, resistiram, a metralhadora falhou e no combate à arma branca o coronel acabou morto pelos revoltosos. Para os desavisados, Gualberto ainda é o patrono da polícia militar do Paraná, mas já tem um concorrente a altura, o secretário Francischini. Naquela ocasião o messianismo uniu todos os revoltosos, a expectativa de ressurreição do Monge José Maria e o retorno de um exército encantado mantiveram a luta dos caboclos pela manutenção de seus direitos tradicionais, alheado a eles pela nova ordem capitalista e a monetarização da terra. Resistiram bravamente por mais três anos contra não apenas a polícia e milícias estaduais, mas contra a metade dos efetivos do exército de então, cerca de seis mil soldados, aviação e modernos armamentos de guerra.
A irmandade dos rebeldes do Contestado pode nos deixar algumas lições: ainda tinham a seu favor todo o fervor da experiência, que nós perdemos. Tinham a fé nas tradições, que trocamos pelo comodismo das telas de led e a revolução dos smarth fones. Em síntese, vale a máxima de Walter Benjamin, de que todo documento de cultura é também um documento de barbárie. A evolução da técnica traz consigo um índice avesso, o retrocesso da sociedade. Contudo, a experiência de choque sofrida pelos professores no “dia das lamentações” pode ser uma data emblemática. A virada de mesa, a tomada de consciência de que os professores fazem parte de uma forma muito peculiar de sacerdócio. A história do sacerdócio caracteriza-se como fonte do que Friedrich Nietzsche havia de chamar a Moral de Escravos. Nos velhos livros religiosos, verifica-se uma coincidência de ordenações, princípios e máximas que poderiam constituir a Cartilha do Escravo Perfeito.
O sacerdote foi muitas vezes o legislador, outras vezes, através de augúrios e oráculos, presidiu a paz como ordenou a guerra. Sacerdócio quer dizer ócio consagrado aos deuses. O ócio não é esse pecado que farisaicamente se aponta como a mãe de todos os vícios. Ao contrário, Aristóteles atribui o progresso das ciências no Egito ao ócio concedido aos pesquisadores e aos homens de pensamento e de estudo. A palavra ócio em grego é sxolé, donde se deriva escola. É o que nos ensina o filósofo e escritor modernista Oswald de Andrade.
Somente o sacerdócio é capaz de deter o programa de governo do Richa, o “choque” de gestão, finalmente posto em prática no dia 29-04. Não se trata de mera analogia entre o neoliberalismo e a tropa de choque (teoria e prática), mas de um plano de governo que somente agora, sublimado pelo gás lacrimogêneo, toma forma. Este foi apenas o primeiro round, o primeiro golpe contra a classe trabalhadora. Primeiro furta-se o fundo de previdência que mantém a liquidez do serviço público do estado, trata-se de um jogo de xadrez. O segundo golpe é novamente zerar os cofres, falir literalmente o serviço público, saúde, educação (à exceção da segurança, que dá sustentabilidade aos negócios burgueses, John Locke já o dizia). E a “única” opção, finalmente é vender todo o patrimônio estatal, as universidades serão o primeiro alvo. E enfim, voi-a-lá, a iniciativa privada entra em cena como o derradeiro salvador do capital. Xeque mate!
Não seria exagero equiparar o projeto do governo Richa com o laboratório executado no Chile de Pinochet e levado à exaustão por Margareth Thatcher na Inglaterra. Estranhamente o governador uniu o liberalismo excludente com as oligarquias do interior, a família Barros. Onde o governo federal combate a crise com remédios keynesianos, Richa investe na austeridade. No lugar dos estímulos à economia, aumento de impostos. Onde há desoneração da cesta básica, o Paraná aumenta o ICMS. É um governo que cumpre a risca cartilha neoliberal e o rolo compressor, a política de choque, apenas começou a sair do papel. Deter este processo é a função de todos nós.  
Leandro Konder, no belo livro “O marxismo na batalha da ideias”, comparou a História metaforicamente à escada rolante, pois certamente ela tem um sentido, um ritmo, uma direção determinada. Mas cabe ao homem ou a humanidade o processo de estacionar na escada rolante, descer ou acelerar o passo. Contudo, ainda assim ela continua no seu ritmo. A analogia é interessante para pensar as condições econômicas e sociais da conjuntura conservadora em que vivemos, um retrocesso inimaginável desde 1964. A greve geral é uma arma, está na modernidade como o mito de Josué no Antigo Testamento, isto é, a tentativa de parar o tempo, de deter um desenvolvimento catastrófico. “O mundo de ponta cabeça”, título célebre de Christopher Hill é também uma citação bíblica que denota a ação humana, terrena, capaz de mudar o curso da história.  

Referências:
ANDRADE, Oswald de. A crise da filosofia messiânica. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1970.
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.
KONDER, Leandro. O marxismo na batalha das ideias. São Paulo: Expressão Popular, 2009.
KOSELLECK, Reinhart. Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC-Rio, 2006.
LÖWY, Michael. Walter Benjamin: aviso de incêndio, uma leitura das teses sobre o conceito de História. Tradução de Wanda Nogueira Brant. São Paulo: Boitempo, 2005.

MARX, Karl. O 18 brumário de Luís Bonaparte. Tradução Nélio Schneider; prólogo Herbert Marcuse. São Paulo: Boitempo, 2011.